Trump: "Ei você! Você mesmo aí de verde amarelo!". Foto: flickr.com/photos/gageskidmore/

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, disse que os Estados Unidos podem punir países que compram equipamentos de telecomunicações da Huawei.

Falando para imprensa em Budapeste, na Hungria, Pompeo sugeriu que os Estados Unidos podem punir empresas que usam Huawei de trabalhar com agências do governo ou mesmo empresas americanas por “preocupações de segurança”.

Segundo o secretário de estado, países que usam muito equipamento da Huawei provavelmente estão sendo espionados por serviços de inteligência chineses, o que, por sua vez, incentivaria dos Estados Unidos a “manterem a distância”.

Os argumentos dos americanos são conhecidos (a Huawei nega tudo, é claro) e já justificaram a decisão de Washington de banir a compra de equipamento chinês para órgãos do governo e em qualquer empresa de telecomunicações que receba financiamento estatal (a maioria delas).

Países próximos dos Estados Unidos como Austrália e Nova Zelândia também aderiram à decisão, alegando riscos de segurança nos equipamentos da Huawei. A Alemanha pediu garantias de segurança para a companhia, no que pode ser um passo preliminar para um bloqueio.

A movimentação começou a ganhar mais força depois da CFO da Huawei, Meng Wanzhou, ser presa no Canadá, acusada por procuradores americanos de ter infringido o bloqueio comercial ao Irã. 

A executiva, que também é a filha do dono da Huawei e potencial sucessora no cargo de CEO, está enfrentando um processo de extradição no momento.

Os problemas entre a Huawei e o governo americano acontecem no meio de uma guerra comercial entre os dois países, um dos principais temas na agenda do presidente americano Donald Trump.

O que as declarações de Pompeo sinalizam a possibilidade de que os Estados Unidos joguem mais na ofensiva, colocando países da sua esfera de influência na obrigação de bloquear as compras da Huawei para preservar suas relações, mesmo que isso não estivesse sendo considerado até agora por razões de segurança.

No Brasil, toda a briga entre Huawei e governo americano tem passado mais ou menos sem consequências locais até agora. É uma situação que não pode durar mais muito tempo.

Nos últimos anos, os chineses tem feito um esforço para incrementar sua presença no Brasil por meio de dezenas de acordos de pesquisa com diferentes universidades, provavelmente de olho em contratos futuros quando o 5G chegar ao país.

O tema surgiu só uma vez, quando da visita à China de uma delação de cerca de uma dezena de deputados federais e senadores, a maioria deles do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro.

Os políticos, que ainda nem tinham assumido os cargos, foram ao país a convite do governo chinês, para “conhecer novas tecnologias”, incluindo o muito comentado sistema de reconhecimento facial atualmente sendo implantado na China. 

A viagem certamente foi também uma ocasião para que a Huawei defendesse o seu lado da disputa com os Estados Unidos.

A visita da delegação, formada em sua maioria por políticos de primeira viagem e pouca expressão, acabou se tornando uma polêmica nacional quando o filósofo Olavo de Carvalho, apontado como o mentor intelectual do novo governo, gravou um vídeo com duras críticas.

Carvalho chamou os parlamentares de "palhaços", "analfabetos" e "caipiras", entre outras coisas, defendendo a tese do governo americano que trazer tecnologia da China para o país era de fato abrir a porta à espionagem chinesa.

Não passou despercebido a muitos defensores de Bolsonaro nas redes sociais que o partido comunista chinês estava por trás da viagem, uma contradição com o discurso anti-esquerdista do novo governo.

As opiniões do filósofo radicado nos Estados Unidos tem peso. Ele é tido como o nome por trás da indicação do ministro das Relações Exteriores e da Educação, além de ter um acesso privilegiado a Bolsonaro e seus filhos.

A briga entre os parlamentares e Carvalho, no entanto, ocorrida há pouco menos que um mês, acabou não tendo resultado prático ou continuidade, sendo enterrada no fluxo de acontecimentos desde então (2019 está sendo um ano e tanto).

Mas é fato que o novo governo de Jair Bolsonaro tem se alinhado quase que automaticamente à política exterior americana em questões de grande impacto como a localização da embaixada brasileira em Israel. 

Parece difícil de imaginar que a Huawei seja o ponto onde essa orientação vá mudar de curso. Por outro lado, a liderança da multinacional no país é formada por um contingente algo anônimo de executivos chineses, aparentemente sem maiores contatos locais.

A comunidade acadêmica brasileira, uma potencial defensora da Huawei com base no seu interesse nos investimentos feitos pela Huawei em pesquisa no país, não está em um momento especialmente privilegiado.

O novo ministro de Ciência e Tecnologia, o ex-astronauta Marcos Pontes, é um outsider nos círculos acadêmicos ou políticos de onde costumavam vir os nomes dos quais costumava vir o comando do Ministério e tende a se alinhar com Bolsonaro, o fiador da sua posição.

Ao que tudo indica, é uma questão de tempo para o governo brasileiro ter que tomar uma decisão sobre a Huawei, e ela não deve ser favorável aos chineses.