Porto Alegre precisa de uma mudança de rumos. Foto: Pixabay.

A notícia de que UFRGS, PUC-RS e Unisinos, as três maiores instituições de ensino superior do Rio Grande do Sul, fecharam um acordo focado na promoção de inovação em Porto Alegre eletrizou o ecossistema de tecnologia da cidade nesta semana.

Com a movimentação, as instituições de ensino superior gaúchas se colocaram no centro do debate sobre o futuro da capital gaúcha, atualmente atravessando uma espécie de “crise existencial”.

O aspecto mais chamativo até o momento foi a contratação como consultor do projeto de Josep Piqué, presidente da Associação Internacional de Parques Científicos e Tecnológicos (Iasp) e um dos idealizadores do Barcelona @22, um projeto de revitalização de uma área industrial dentro da cidade espanhola.

Piqué, que já prestou consultorias do mesmo tipo em Santa Catarina e Medellín, na Colômbia, exerce a função de “santo de fora de casa” e tem como missão entregar um mapeamento das capacidades instaladas na cidade, assim como os principais “desafios” e sugestões de ações.

“Minha missão é dizer com transparência para todas as partes o que precisa ser feito para construir a visão de futuro para a cidade”, aponta Piqué. 

Quem acompanha o ambiente de inovação de Porto Alegre sabe mais ou menos o que estará na agenda: a regulamentação da Lei de Inovação aprovada em 2013 e a situação do projeto de revitalização urbana do Quarto Distrito, uma área decadente próxima do centro da capital, em stand by desde 2016.

A contratação de Piqué será bancada por um grupo de empresários de Porto Alegre cujos nomes ainda não foram revelados. 

O trabalho de Piqué é só uma pequena parte da movimentação das universidades. Com o anúncio da aliança, feito pelos reitores na segunda-feira, 09, no salão da reitoria da UFRGS, as três instituições estão colocando em nível institucional uma aproximação que já vinha acontecendo no nível dos parques tecnológicos.

UFRGS e PUC-RS começaram a colaborar em um projeto de parque tecnológico para o Quarto Distrito ainda 2015, avançando a relação com um evento conjunto sobre empreendedorismo no ano seguinte.

A Unisinos é sediada em São Leopoldo, mas acaba de inaugurar um campus em Porto Alegre, e também já mantinha um acordo com a PUC-RS no sentido de promover a internacionalização de startups instaladas nos seus parques tecnológicos de maneira conjunta.

“As universidades estão desenvolvendo seus parques tecnológicos desde o começo dos anos 2000. É um trabalho consolidado. O desafio agora é outro: queremos ajudar a transformar a cidade como um todo”, aponta Jorge Audy, assessor de Ciência, Tecnologia e Inovação da reitoria da PUC-RS.

Um projeto bem sucedido no Quarto Distrito seria benéfico para a PUC-RS, cujo parque tecnológico construído ao lado do seu campus na área de um antigo quartel está próximo da lotação, assim como a Unisinos, que tem o seu parque em São Leopoldo, e para a UFRGS, que vem tentando unificar uma série de iniciativas em um espaço único.

O acordo de cooperação entre as universidades vai muito além, envolvendo na pauta para 2018 o compartilhamento de estruturas dos parques entre todas as empresas e incubadas e instaladas, além do início de trabalhos de pesquisa conjuntos entre as três instituições e até cursos de especialização e mestrados construídos a três mãos, um fato inédito.

A mobilização das universidades é um marco em um estado que cunhou expressões como “grenalização” (a divisão de facções políticas que se sabotam mutuamente, independente da importância do tema em discussão), ou ainda “síndrome de caranguejo” (o comportamento de atores que estão mais preocupados com o ganho do outro lado numa negociação do que com os próprios interesses).

“Acredito que as universidades tem credibilidade para liderar uma mudança necessária na cidade. Esse acordo tem um simbolismo muito forte no Rio Grande do Sul no sentido de quebrar barreiras e resistências para trabalhar em conjunto”, resume Luís Lamb, pró-reitor de Pesquisa da UFRGS. 

O acordo entre as universidades será administrado por um grupo de representantes das instituições, sendo dois da UFRGS, outro da Unisinos e mais um da PUC-RS. 

Um grupo executivo será formado para tomar as decisões no dia-a-dia, além de grupos de trabalho específicos por temas, nos quais poderão participar outras instituições, entidades e empresas.

A preocupação das universidades é que Porto Alegre tenha deixado de se tornar uma cidade atrativa para empreendedores capazes de criar negócios capazes de empregar profissionais qualificados e fazer girar o ambiente de interação entre empresa e academia oferecido pelos parques tecnológicos.

Tanto Porto Alegre quanto o Rio Grande do Sul atravessam uma crise fiscal em formação há anos e tornada quase intransponível pelos problemas econômicos.

Nos últimos anos, a capital gaúcha viu o policiamento sumir, o inço crescer nas calçadas e os buracos se multiplicarem nas ruas. Alguns ícones locais, como a Gerdau, saíram do estado. O clima é de desânimo.

UFRGS, Unisinos e PUC-RS são ocupantes constantes das primeiras posições nos rankings educacionais do país, motivo pelo qual escapam da percepção de declínio que parece atingir todo o resto do estado em nível econômico e social.

“Precisamos de um projeto que faça sentido para que os novos empreendedores identifiquem Porto Alegre como um destino. A cidade precisa ser atrativa para viver e empreender. Outros lugares com menos recursos estão se saindo melhor”, acredita Alsones Balestrin, pró-reitor Acadêmico e de Relações Internacionais

O assunto é especialmente premente para a Unisinos, que tem base em São Leopoldo, na região metropolitana, mas acaba de investir R$ 210 milhões para criar um novo campus na capital gaúcha. 

Agora é aguardar para ver que efeitos a mobilização produz. A verdade é que as medidas fora do comum são também uma resposta a uma situação fora do comum para as três instituições.

Segundo dados do Ministério da Educação de 2016, o número total de matrículas nos cursos presenciais na educação superior privada caiu 3,5% no Rio Grande do Sul naquele ano, um ponto percentual acima da média do país. 

Foi a primeira queda desde 1991 do número de matrículas e situação certamente não melhorou em 2017. Entre 2006 e 2015, o crescimento médio havia sido de 4%.

A UFRGS não tem problemas para atrair estudantes, mas teve um corte de orçamento de 7,8% em 2017 por parte do governo federal.