Chris Ryu, CEO da HT Micron.

A HT Micron, fabricante de semicondutores sediada no Tecnosinos, parque tecnológico da Unisinos em São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre, lança na próxima semana o que afirma ser o primeiro chip para o mercado de Internet das Coisas produzido no país.

Com o lançamento, a empresa volta para o centro das atenções depois de um período discreto, no qual parece ter passado por mudanças importantes.

O lançamento da HT vai permitir o desenvolvimento de chips específicos, sem a necessidade de volumes de produção extremamente altos, com utilização possível em produtos para localização de pessoas, cargas, medição remota de gás e água, iluminação pública, entre outras. 

Em entrevista ao Jornal do Comércio, o CEO da HT Micron, Chris Ryu, revelou que dos cerca de 20 milhões de chips a serem produzidos pela empresa no país neste ano, 1 milhão serão da nova linha.

O impacto na receita talvez seja maior do que essa proporção: a empresa projeta um crescimento de 50% para 2019, atingindo R$ 600 milhões. 

A HT Micron é uma joint venture do Grupo Parit (que por sua vez une as gaúchas Altus e Teikon) com a coreana Hana Micron, prestes a completar 10 anos de atuação. Até 2017, a companhia foi encabeçada por Ricardo Felizzola, um dos sócios da Altus.

Ryu, um executivo experiente na indústria de chips sul coreana, assumiu o comando da HT no começo de 2017, sem fazer alarde. 

No final de 2016, Felizzola já havia adiantado a possibilidade em uma entrevista publicada pelo Jornal do Comércio, no qual revelava que os últimos anos haviam sido “difíceis” e que uma “dança das cadeiras” seria “natural”.

Além da crise econômica dos últimos anos, a HT teve que navegar uma mudança no cenário nacional de semicondutores. 

A fábrica em São Leopoldo foi inaugurada em 2014 com direito à presença da então presidente Dilma Rousseff.  

A HT Micron é um case de sucesso da política industrial dos governos petistas, que tinha no fomento do setor de semicondutores no país um dos seus pontos chave.

O investimento do BNDES  na unidade foi de cerca de R$ 50 milhões para equipamentos, com outros R$ 35 milhões do Finep para o desenvolvimento dos processos.

A ideia era que a empresa se tornasse uma fornecedora de produtos de memórias para celulares, computadores e smart TVs.

Na época, a meta divulgada pela HT era chegar uma a capacidade máxima de 360 milhões de chips/ano, com o qual poderia atender a cerca de 25% da demanda nacional por estes produtos – um mercado que movimenta cerca de US$ 25 bilhões no país.

Outras iniciativas, como o Ceitec, também focada em chips, também datam dessa época, assim como discussões de investimentos bilionários da Foxxconn no país ou uma possível empreitada de Eike Batista no setor. 

Tudo isso saiu da pauta política no governo Temer e parece absolutamente enterrado no governo Bolsonaro.

O novo lançamento da HT Micron, no entanto, volta a colocar a empresa no coração dos acontecimentos no Brasil.

O governo federal tem feito muito barulho em torno do assunto de IoT como um viabilizador da chamada Indústria 4.0, na qual sensores em maquinário e produtos combinados com softwares analíticos abrem uma série de novas possibilidades.

O estudo “Internet das Coisas: um plano de ação para o Brasil”, realizado pelo BNDES e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), aponta a tecnologia como estratégica para o país. 

Segundo o trabalho, até 2025, o impacto potencial no Brasil do uso de IoT é de US$ 50 bilhões a US$ 200 bilhões por ano, valor que representa cerca de 10% do PIB. 

A avaliação é que a tecnologia é capaz de produzir mais efeitos positivos do que a robótica avançada, as tecnologias cloud e a internet móvel.

De acordo com o estudo, o uso de IoT pode, por exemplo, agregar valor a produtos de exportação do país, ao reduzir o custo de produção; aumentar a produtividade por meio do redesenho do trabalho, entre outras vantagens. 

O secretário de Política de Informática do MCTIC, Maximiliano Martinhão, disse que o investimento em IoT será um marco para a economia brasileira, comparável ao processo de privatizações ocorrido na década de 1990.

Não é só conversa: a Finep anunciou a abertura de uma linha de crédito de R$ 1,5 bilhão para apoiar iniciativas ligadas a IoT.