Pode passar a compra no cartão. Foto: Divulgação.

A Rede, empresa de pagamentos do Itaú, está preparando uma oferta de mais de R$ 7 bilhões pela Linx, companhia de software de gestão para o varejo atualmente sendo disputada pela Stone e a Totvs.

A informação é do site Neofeed, citando fontes da empresa. Em nota ao mercado, a Rede negou que esteja negociando a compra do controle da Linx.

Caso a oferta aconteça, ela é superior aos R$ 6,04 bilhões oferecidos pela Stone e aos R$ 6,1 bilhões da Totvs (a Stone está oferecendo 90% em dinheiro, a Totvs oferece mais ações).

Segundo destaca o site, a compra faz sentido para a Rede, que hoje captura 40% dos R$ 89 bilhões que são processados pela solução de TEF da Linx. 

Em teleconferência com analistas, a Linx confirmou os dados e disse que o volume da Rede é mais de duas vezes maior do que o segundo colocado, a Cielo, ligada a Banco do Brasil e Bradesco. A Getnet, do Santander, é a terceira.

Caso o negócio com a Stone saia, seria de se esperar que as outras adquirentes seriam preteridas na oferta de plataforma aos varejistas.

Esse tipo de sinergia é justamente o que diversos analistas tem apontado como o ponto forte da oferta da Stone em relação à da Totvs. É também um prejuízo assegurado para a Rede.

Uma eventual oferta da Rede seria um complicador a mais naquela que já é a maior disputa por uma empresa de tecnologia já ocorrida no Brasil.

O primeiro passo público da disputa foi da Stone, que na terça-feira, 11, anunciou uma oferta de R$ 6,04 bilhões, 90% em dinheiro, 10% em ações.

O negócio foi saudado por analistas como uma convergência de suas operações com sinergias óbvias. 

Nesta sexta-feira, 14, a Totvs veio a público com uma nova oferta, de R$ 6,1 bilhões, em dinheiro e ações, resultando numa nova Totvs no qual os atuais acionistas da Linx teriam 24%.

Ao anunciar sua oferta ao conjunto de acionistas da Linx, a Totvs revelou que estava em conversas com a direção da empresa, e que elas foram interrompidas unilateralmente antes do anúncio da venda para Stone.

De acordo com a Totvs, havia ficado acertado entre as companhias que a Totvs apresentaria sua proposta formal após a divulgação do balanço da Linx, que estava previsto para a noite de segunda-feira, dia 10. O balanço não saiu. Na terça, a Stone fez sua oferta.

Nesta segunda-feira, 17, a Linx reagiu a essa versão, afirmando que quando da aprovação da proposta da Stone "não havia qualquer expectativa ou elemento concreto a respeito de uma eventual proposta da Totvs".

Segundo a Linx, entre 31 de julho e 4 de agosto, a Totvs informou que qualquer proposta sua ainda estava em "estudos preliminares" e "demoraria semanas", e que a Totvs não voltou a procurar a empresa.

"Não há qualquer acordo vigente de confidencialidade que permita o compartilhamento de informações entre a Companhia e a Totvs, tipicamente a primeira etapa necessária para a discussão de uma operação de combinação de negócios", afirma a Linx.

Independente da guerra de versões, a Totvs fez agora o que se chama de uma oferta agressiva, no qual uma empresa tenta comprar a outra sem um acordo prévio com o conselho da companhia alvo.

A negociação se parece em momentos com um triângulo amoroso: segundo apurou o Neofeed, a Stone teria sondado a Totvs para uma compra, antes de desistir e abrir uma negociação com a Linx, empresa na qual vê mais possibilidades de sinergia.

A história é muito mais complicada do que um simples quem dá mais, envolvendo também uma escolha do futuro modelo de negócios da Linx, acusações sobre a lisura do processo e até relacionamento entre o comando da Linx e da Totvs.

Entre a oferta da Stone e a da Totvs a Fama Investimentos, dona de 3% das ações da Linx, veio a público para protestar contra o que considera como uma conduta antiética dos três sócios fundadores da Linx.

Alberto Menache, Nércio Fernandes e Alon Dayan, os três fundadores da Linx, vão levar sozinhos uma bolada de R$ 1,2 bilhão pela venda na proposta da Stone. 

A cifra é R$ 400 milhões maior do que dariam direito os 14% de ações detidas pelo trio, porque os empresários estão sendo pagos pela Stone também por meio de salários e as chamadas cláusula de non-compete, que os impedem de ir trabalhar na concorrência.

De acordo com a Fama, os valores extra recebidos pelos três sócios em relação aos acionistas normais (35% a mais no caso de Fernandes e Dayan, 63% no caso de Menache) são contra a chamada regra do tag along prevista para as ações listadas no Novo Mercado.

Esse princípio garante que todos os acionistas precisam receber o mesmo valor numa venda da empresa. A gestora sugere que os acordos são “estratagemas criativos” desenhados para driblar a regra do jogo.

A oferta da Totvs, por outro lado, é explícita em afirmar que o mesmo valor será pago a todos os acionistas.

Em sua nota, a Totvs frisa que sua oferta é a que “melhor atende ao interesse do conjunto de acionistas da Linx, sem conflitos de interesses, benefícios particulares ou assimetria de tratamento”.

De acordo com a Exame, acionistas da Linx já discutem se as cláusulas assinadas com a Stone não seriam ilegais, uma vez que pela Lei das Sociedades por Ações, administradores estão comprometidos em defender o melhor interesse da Linx e de seus acionistas.

Um complicador adicional é que 53% das ações da Linx estão em circulação na bolsa, com investidores individuais. 

Além dos sócios e da Fama, os outros grandes acionistas são a GIC, fundo soberano de Cingapura, com 10% e o fundo de investimento americano Genesis Asset Managers, com 5,4%. 

A entrada na Rede na disputa deve aumentar os lances dos outros envolvidos, mas também aponta para uma saída para a Linx, no sentido de fechar um negócio por um valor maior e que preserve as sinergias a serem obtidas com uma empresa de pagamentos.