O que um carro precisa ter hoje?

Na semana passada acompanhei o lançamento das novidades da Ford na Campus Party 2019, em São Paulo. Como expliquei nesse artigo, não fiquei muito impressionado. Na corrida tecnológica, a montadora norte americana está ficando para trás. 

Basta lembrar que seu símbolo maior ainda é vovô Mustang. Ouvi nos bastidores do evento que vem aí uma versão elétrica do mito. Fiquei feliz com a notícia por dois segundos, depois fiquei triste. Nada mais melancólico que um muscle car elétrico.  

Mais triste me deixou a notícia desta semana. A fábrica da Ford do ABC Paulista, tão simbólica e cheia de história, vai virar terreno cinza, de acordo com o anúncio do headquarter global. De acordo com o comunicado, toda sua linha de caminhões vai deixar a América do Sul. Mas espere: as negociações estão apenas começando. 

O jornal O Globo informa que o ex-apresentador de TV e atual governador do estado de São Paulo, João Dória, e o ex-ministro da Fazenda e presidenciável com 1% dos votos, Henrique Meirelles, ambos new faces do liberalismo à brasileira, se reuniram com representantes da empresa. 

Líderes sindicais não foram convidados à mesa. A conversa tem girado em torno da compra da fábrica por algum grupo nacional. Meirelles, que foi chamado para resolver o pepino junto com o vice-presidente da Ford Rogélio Golfarb, conduzirão o trabalho de prospecção. 

Fico imaginando quem compraria uma fábrica de caminhões numa altura dessas. Dizem que na Turquia o modelo funcionou. Uma empresa local está fabricando vans com símbolo da Ford, sob licença. Será que esse modelo funcionaria por aqui? Será o papel do Estado procurar compradores para uma fábrica privada? 

O fato é que a Ford vem se reestruturando, e não é de hoje. Em maio do ano passado, a montadora decidiu pelo fim da produção de carros leves de passeio nos EUA. Isso mesmo. A inventora do sedan moderno, o Ford T, está parando de fabricar este tipo de veículo

Na prática, vão se concentrar nos grandes, pesados e imponentes SUVs, que fazem sucesso entre os americanos. Este movimento está em linha com outras ações anunciadas há mais de três, anos, entre eles investimentos em produtos e serviços relacionados à nova mobilidade. 

Para se ter ideia, um bilhão de dólares poderá ser investido na startup ARGO AI, de inteligência artificial para carros autônomos, e outros tantos investidos em serviços de compartilhamento de vans e bicicletas por meio da subsidiária Ford Smart Mobility. 

Todos esses planos passam, porém, pelo crivo da nova parceria com a Volkswagen. A montadora alemã tem planos bem mais ambiciosos para o futuro da mobilidade e a Ford está claramente pegando carona para não morrer. “Não haverá 10 vencedores neste mercado quando olharmos para trás. Haverá poucos, e nós queremos ser um deles”, afirmou o atual CEO da Ford, Jim Hackett.   

Inicialmente, o anúncio do fim da fábrica do ABC Paulista previu encerramento das atividades de imediato. O vice-presidente da Ford Brasil, entretanto, já espichou o prazo para dezembro de 2019. 

Uma vez que a GM fez uso de um “bilete” na porta das fábricas para barganhar redução salarial e outras benesses, alguns analistas poderão concluir que a Ford pode estar blefando com o objetivo de reduzir custos. Acho improvável que no caso da Ford essa hipótese seja verdadeira.

A Tesla vem anunciando seu caminhão supermodernão autônomo e, obviamente, elétrico. Se alguém duvida do poder de realização desta ex-startup e futura gigante automobilística, deve se atualizar. 

A questão mais profunda é que a Tesla tem lançado as tendências de mercado. Logo, o padrão do transporte rodoviário de carga vai se transformar rapidamente. A montadora que não lograr êxito em produzir uma carreta elétrica, autônoma e barata, vai terminar por comer capim pela raiz. 

A decisão do headquarter global da Ford de fechar a unidade de caminhões lá em São Bernardo perpassa por essas mudanças macro-estruturais de mercado, com especial atenção à ascensão daquilo quem vem se chamando de nova mobilidade. 

Dória, Meirelles e outros liberais podem até dançar um kuarup na tentativa de conduzir a mão invisível do mercado de caminhões, mas, no lugar deles, eu estaria gastando tempo na busca de unicórnios chineses fabricantes de patinetes e carrinhos motorizados para se instalarem no Brasil.

* Carlos Martins é idealizador da E-24, a primeira corrida de carros 100% elétrica do Brasil e escreve para o Baguete sobre temas relacionados com indústria automobilística e mobilidade.