Sede do Serpro em Brasília: barco está mudando de direção.

O Serpro abriu um edital buscando provedores de serviços em nuvem interessado em atender o governo em um a regime de “parceria de negócios” com a estatal, a maior fornecedora de serviços de tecnologia para a administração pública brasileira.

A participação está aberta a empresas nacionais, multinacionais com sede no Brasil e mesmo sem presença local, desde de que elas tenham um representante com capacidade jurídica para assinar a proposta.

Os centros de dados dos eventuais parceiros precisarão estar no Brasil e de acordo com uma série de normas, incluindo SOC 3 ou equivalente; ISO 27001, ISO 27017 ou CSA Star Certification Level Two ou superior e ISO 27018 ou ISO 27018.

Os interessados devem possuir, ainda, comprovação válida que o provedor de serviços em nuvem está em compliance com o Cybersecurity Framework (CSF – Estrutura de segurança cibernética) definido pelo National Institute of Standards and Technology (NIST).

Os requisitos de qualificação técnica incluem, entre outros, usar uma plataforma que permita o provisionamento com autoatendimento por meio de APIs e console de gerenciamento e portal web. 

Para os provedores de serviços de Infraestrutura como Serviço (IaaS), serão pedidos no mínimo, dois datacenters em território nacional e a capacidade de replicar os dados com failover automático. 

Na proposta, a empresa interessada deve propor configuração de oportunidade de negócio, o qual pode ser estabelecido por meio dos mais variados modelos associativos, societários ou contratuais, nos moldes da Lei das Estatais. E, por fim, demonstrar vantagem comercial para o Serpro com a parceria.

Com o anúncio dos editais, o Serpro dá o primeiro passo para se posicionar como um intermediador (ou broker, para usar o termo da moda) de serviços de computação privados para o governo.

As primeiras informações públicas nesse sentido aconteceram em setembro de 2017, quando de acordo com informações da imprensa o Serpro começou a negociar uma movimentação em conjunto com a Dataprev, a segunda maior fornecedora de TI do governo.

Na época, se falou que o objetivo era selecionar fornecedores até o final de 2017. 

Ao que parece, a nova administração do Serpro decidiu seguir sozinha. 

O presidente da companhia, Caio Paes de Andrade, anunciou em setembro planos para a empresa que incluíam o posicionamento como broker, além de uma entrada mais forte no mercado de empresas privadas.

O carro chefe do Serpro no mercado privado é o oferecer processamento de dados públicos a clientes, que incluem desde os aplicativos de transportes Uber e 99 até bancos digitais e redes varejistas, como a Havan.

O plano de virar um “broker” é uma reação aos novos ventos na estratégia de TI em Brasília, que já vem soprando desde o governo Dilma Rousseff.

Em 2016, a secretaria de Tecnologia da Informação, do Ministério do Planejamento já havia orientado os órgãos públicos a não investirem mais em infraestrutura própria, recomendando a contratação de computação em nuvem.

Com uma abertura cada vez maior para clouds oferecidas por fornecedores privados, estatais como o Serpro e Dataprev precisam mudar para seguir relevantes.

No final de 2018, a Embratel levou um grande contrato de computação em nuvem junto ao Ministério do Planejamento, um marco histórico.

A Embratel disputou a licitação com a sua subsidiária de outsourcing de TI e telecom, a Primesys. A proposta, de R$ 29,9 milhões, foi cerca da metade do que o edital previa. 

Ao todo participaram da disputa outros 11 nomes, incluindo grandes companhias como Tivit, Globalweb, Brasoftware, Capgemini, empresas de médio porte como BR Cloud, UOL Diveo, Binario e players menos conhecidos como GMAES, Central IT, RJR e Real Digital.

Ainda em 2012, o Serpro, estatal federal de processamento de dados, investiu R$ 40 milhões em duplicar seu data center de Brasília, e anunciou outros R$ 180 milhões para a construção de um novo centro em São Paulo.

O conceito ainda era que o Serpro deveria ser o provedor de computação em nuvem para o governo, como uma prolongação da estratégia de desenvolvimento interno de tecnologia baseada em software livre visando a “independência tecnológica” frente aos grandes fornecedores multinacionais de TI.

O único ponto da doutrina anterior sobre tecnologia que permanece é a exigência de que os servidores estejam em território brasileiro sob a jurisdição do país, o que está em linha com o que outros governos e mesmo empresas no exterior tem feito.