Fachada do Ceitec.

O Ceitec, fábrica de chips sediada em Porto Alegre, deu um salto de qualidade na sua governança corporativa, saindo da zona de rebaixamento da tabela para o topo da lista entre as estatais controladas pelo governo federal.

É o que aponta o último ranking do Programa de Medição de Indicadores de Governança – IG-SEST, promovido pelo Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, no qual o Ceitec teve nota 9,46 em uma escala de 0 a 10.

O resultado coloca o Ceitec no nível 1 do programa, junto com empresas como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Infraero, BNDES, Petrobras. 

É um salto frente à nota de 2017, quando a companhia ficou nível 4, no qual estão empresas com notas entre 0 e 2,5. Na ocasião, não foi revelada a pontuação exata de uma das 48 organizações analisadas.

“Essa conquista é resultado do esforço de toda a equipe Ceitec”, destaca o diretor de Governança, Risco e Conformidade da empresa, Ibanez Filter. “Isso demonstra uma maior maturidade e uma preocupação contínua com a melhoria de seus processos de gestão”, completa o executivo.

O IG-SEST é uma medida de acompanhamento do compliance com a Lei de Estatais de 2016. São medidos indicadores como gestão, controle e auditoria; transparência das informações; e conselhos, comitês e diretoria.

O índice não avalia a situação econômica, financeira, de liquidez e solidez empresarial.

O que nenhum desses índices pode prever é qual é o futuro do Ceitec, que talvez esteja prestes a entrar em um dos períodos mais incertos da sua história.

Parte da política industrial dos governos petistas para a área de semicondutores, o Ceitec existe por meio de subsídios de Brasília, que passam de R$ 670 milhões desde 2000.

Em 2017, a empresa cresceu 16%, para um faturamento de R$ 4,6 milhões e reduziu seu prejuízo pela metade, para R$ 23 milhões. O governo federal colocou mais R$ 35 milhões na empresa, por meio de subvenções de custeio e aumento de capital, segundo o balanço disponível no site.

No começo de 2017, a estatal divulgou uma nota com os planos do novo presidente, Paulo de Tarso Luna, de chegar a R$ 100 milhões em três anos.

Essas metas, no entanto, depende que o novo governo leve a cabo diversas políticas públicas de digitalização estagnadas nos últimos anos - e que o Ceitec se torne o fornecedor dos chips.

Essas frentes incluem o fornecimento de chips para os passaportes brasileiros, o Registro Civil Nacional (RCN) e o Sistema de Identificação Automática de Veículos (Siniav).

Os sinais do novo governo em Brasília são outros. Nesta semana, fundador da locadora de veículos Localiza, Salim Mattar, assumiu a secretaria-Geral de Desestatização e Desimobilização.

"A nova secretaria vai ser responsável pelos desinvestimentos, desimobilização e busca de maior eficiência na gestão dos ativos da União", explicou em nota o futuro super ministro da Economia, Paulo Guedes.

Guedes, como até os postes da rua sabem, é um liberal convicto e não tem apreço algum por estratégias de política industrial e participação do estado na economia que justificaram o investimento no Ceitec na última década.

Organizações como a BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, além de atividades de refino da petroleira estatal e partes do Banco do Brasil já foram especulados como alvos de privatização.

O Ceitec é uma organização muito menor, mas pode acabar entrando nos planos. O negócio de semicondutores tem um custo fixo alto: o Ceitec tem quase 200 empregados, dos quais quatro são pós-doutores, 10 doutores e 46 tem mestrado.

Além disso, consome investimentos constantes em tecnologia de ponta, como o SAP S/4Hana, última versão da solução de gestão da multinacional alemã, a um custo total de R$ 2,5 milhões ou o HP Pod, solução de data center in a box da multinacional, a um custo de R$ 5 milhões.

O último grande debate sobre o futuro do Ceitec foi em 2013, quando foi discutida publicamente a possibilidade de venda de parte de empresa, deixando o governo como sócio de uma PPP gerida pela iniciativa privada.

Ainda em 2009, no entanto, o então presidente do Ceitec, Eduard Weichselbaumer, disse publicamente que a empresa só seria bem sucedida se fosse privatizada.

Weichselbaumer, um executivo alemão que foi o único profissional de mercado a comandar o Ceitec, acabou saindo da empresa em 2010, em meio a choques com o Ministério de Ciência e Tecnologia.