Gustavo Siuves é CRO na Azify.
Durante muito tempo, o crescimento acelerado foi tratado como o principal ativo das fintechs. Lançar rápido, testar no mercado e ajustar depois parecia a estratégia natural em um setor nascido para desafiar estruturas tradicionais.
Nesse contexto, compliance costumava entrar tarde no processo, como um requisito regulatório a ser cumprido quando o negócio já estivesse rodando.
Esse equilíbrio começou a mudar quando o custo de errar passou a ficar alto demais. Segundo levantamento da Fenergo, apenas no primeiro semestre de 2025 as multas aplicadas globalmente a instituições financeiras somaram cerca de US$ 1,23 bilhão, um salto de 417% em relação ao mesmo período de 2024.
A maior parte das penalidades está ligada a falhas em AML, KYC e monitoramento de transações — exatamente os pontos mais sensíveis para fintechs que operam com grandes volumes de dados e pagamentos em tempo real.
Ao mesmo tempo, o mercado também passou por um ajuste de maturidade. Os investimentos em fintechs desaceleraram, bancos parceiros ficaram mais seletivos, e investidores passaram a exigir estruturas de governança mais robustas antes de aportar capital.
Pesquisa da Deloitte mostra que 46% das fintechs em estágio inicial (até Série B) não possuem auditoria interna, e apenas 34% contam com comitê de risco no conselho, contra 75% com comitê de auditoria. O resultado é claro: risco segue sendo tratado de forma reativa, e não preventiva.
Durante muito tempo, crescimento e controle foram tratados como forças opostas. Hoje, a experiência mostra o contrário.
As fintechs que conseguem escalar com consistência são justamente aquelas que entenderam que a governança não desacelera — ela dá base. Quando os controles são bem pensados, a operação flui melhor, as decisões ficam mais rápidas e o crescimento deixa de ser um risco para virar estratégia.
A virada: de custo inevitável a vantagem
Quando o compliance entra tarde no jogo, o resultado é previsível: retrabalho caro, lançamentos atrasados, e produtos que vão ao ar com falhas estruturais. A conta aparece depois, em multas ou perda de licença. Já as que embarcam controles desde o início colhem benefícios reais.
Segundo relatório da Alloy sobre embedded finance, 80% dos bancos patrocinadores consideram compliance desafiador, e 39% perderam ao menos US$ 250 mil por violações. O resultado foi ver as due diligences ficaram mais longas, critérios de parceria mais rígidos, e fintechs sem governança robusta estão sendo cortadas.
As que saíram na frente inverteram a lógica. Há uma organização, por exemplo, que integrou os riscos e compliance desde a concepção dos produtos. Toda ideia passa por revisão conjunta entre produto, engenharia e compliance, com reuniões semanais e sync quinzenais. O ganho? Produtos que nascem conformes, menos bloqueios de última hora e auditorias limpas.
Bancos líderes usando IA generativa em compliance estão vendo resultados concretos, com redução em falsos positivos na detecção de fraude, corte nos custos e melhora nas taxas de fechamento de casos. A tecnologia está nivelando o jogo, mas só para quem investe em dados limpos e processos bem desenhados.
A Deloitte mapeou quatro modelos operacionais para colaboração entre inovação e risco, que variam conforme o nível de integração: no modelo aprovador, risco valida produtos prontos; nos trilhos paralelos, equipes trabalham em paralelo com pontos de sincronia; na parceria integrada, risco e produto compartilham responsabilidades desde o início; e na co-criação, ambos moldam padrões de mercado juntos. Não existe certo ou errado, o segredo é escolher o modelo adequado ao risco do projeto e saber quando migrar entre eles.
O que separa as fintechs que escalam das que travam
Três práticas diferenciam quem cresce sustentável de quem cresce rápido demais:
1. Cultura de risco desde o topo
Dar voz a compliance no nível C-level e no conselho muda a dinâmica. Quando líderes de produto e de risco compartilham métricas e celebram vitórias juntos, compliance deixa de ser "o time que diz não" e vira parceiro estratégico. Fintechs maduras tratam confiança como feature de produto, publicando marcos como "100 dias sem incidentes" em comunicações com investidores.
2. Linguagem comum entre produto e risco
Times de produto falam em conversão e NPS. Times de risco falam em exposição regulatória. Sem tradução, nunca se entendem. As melhores fintechs estão criando dashboards compartilhados onde métricas de negócio (velocidade de lançamento, satisfação) aparecem ao lado de métricas de compliance (incidentes, score em auditorias). Transparência gera accountability mútua.
3. Investimento em RegTech
O mercado global de tecnologia regulatória deve ultrapassar US$ 25 bilhões até 2028, de acordo com a Business Research Insights. Ferramentas de RegTech já automatizam triagem de sanções, monitoramento de transações e verificação de licenças. Mas o framework 10-20-70 da BCG deixa claro: 10% do impacto vem de algoritmos, 20% de tech e dados, 70% de pessoas e processos. Sem mudança cultural, tecnologia não escala.
Construir bem é mais rápido que correr sem rumo
O ambiente regulatório global endureceu. Nos EUA, multas para instituições financeiras chegaram a US$ 4,3 bilhões em 2024, alta de 522% para bancos. Na Europa, a FCA triplicou suas penalidades, atingindo £176 milhões. As categorias que mais geram multas são justamente onde fintechs atuam.
Mas há sinais de pragmatismo. Nos EUA, sinalizações federais recentes indicam foco em viabilizar inovação com supervisão clara. Paralelamente, reguladores estaduais estão assumindo papel mais ativo, criando funções centralizadas de proteção ao consumidor e exigindo transparência de players de BNPL (buy now, pay later).
Ou seja, o compliance não é mais negociável. As fintechs precisam tratar governança como investimento estratégico, e não custo inevitável. Os bancos preferem parceiros confiáveis. Investidores valorizam empresas que não vão explodir por falha regulatória e os clientes confiam em marcas que protegem seus dados.
Escalar de verdade não é acelerar sem critério, mas construir bem desde o começo. É escolher um processo crítico, estruturá-lo como referência e mostrar avanços reais, com melhorias que o time percebe no dia a dia. Também passa por definir, sem ambiguidade, onde a IA atua de forma autônoma e onde o julgamento humano é indispensável, e preparar as equipes para trabalhar em parceria com a automação, não apenas para vigiá-la.
* Gustavo Siuves é CRO na Azify. Especialista em desenvolvimento de negócios com 16 anos de experiência como vendedor de alto desempenho em grandes corporações de produtos de consumo e serviços financeiros.