Ceitec escapou do fechamento no curto prazo. Foto: Divulgação.

O Ceitec, estatal de fabricação de chips sediada em Porto Alegre, está sendo defendida pelo Ministério de Ciência e Tecnologia e parece ter boas chances de seguir existindo, pelo menos no médio prazo.

Pelo menos, é o que se deduz de uma entrevista dada à Veja pelo secretário especial de Desestatização e Desinvestimento do Ministério da Economia, Salim Mattar, que disse que  o Júlio Semeghini, secretário executivo do Ministério de Ciência e Tecnologia, “não quer privatizar nenhuma das estatais da pasta”.

Mattar falou em termos genéricos sobre a resistência dentro do governo a por em prática o programa de privatizações do Ministério de Economia, mas só deu nome aos bois no caso de Semeghini e do MCT. 

Falando em bois, Mattar também falou indiretamente do Ceitec: “Existem casos como o de uma estatal que deveria produzir um chip para monitorar os rebanhos. O tal chip, que é instalado na orelha do boi, nem é produzido no Brasil”. 

No começo de janeiro, o Ceitec foi dado como um caso terminal pelo Estadão, que afirmou que a empresa deveria ter as portas fechadas até março, quando todos os funcionários serão demitidos e os ativos vendidos.

Ainda segundo o Estadão, a chamada liquidação deve ser aprovada pelo conselho do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), colegiado formado por ministérios e bancos públicos, além da Presidência da República, em uma reunião em fevereiro.

Fevereiro e março vieram e passaram e não há notícias que o Ceitec tenha encerrado suas atividades.

Talvez a ênfase no Ceitec tenha sido um movimento estratégico, para conseguir começar a política de fechamento e privatização de estatais em algum lugar, de preferência onde as resistências fossem baixas.

O Ceitec tem exatamente esse perfil: parte da política industrial dos governos petistas para a área de semicondutores, a empresa existe por meio de subsídios de Brasília, que totalizam desde 2008 a cifra R$ 1,08 bilhão, dos quais R$ 400 milhões foram na construção e outros R$ 680 milhões em outros investimentos e custeio.

Parece que não foi bem assim e o secretário Júlio Semeghini está organizando uma defesa do Ceitec. Vale notar que Mattar parece desconhecer ou fingir desconhecer o nome do ministro Marcos Pontes, a quem se refere como “ministro astronauta”.

Ao contrário de Pontes, que é um neófito em assuntos de governo (como, aliás, o próprio Salim Mattar), Semeghini é um operador experiente: iniciou sua carreira pública em 1995, quando assumiu a presidência da Prodesp, estatal de processamento de dados de São Paulo, e se tornou conhecido no setor de tecnologia ao longo de quatro mandatos consecutivos de deputado federal pelo PSDB.

Na entrevista à Veja, Mattar se declara “quase um libertário”, “ à direita do ministro Paulo Guedes” e disposto a “privatizar tudo”. Por outro lado, o empresário, dono de uma história de sucesso à frente da Localiza,  parece conformado com o fato de que não vai conseguir resultados tão cedo. 

“Eu diria que vamos privatizar mais no terceiro ano que no segundo e mais no segundo que no primeiro ano de governo”, projeta Mattar. “Pode ter certeza: a privatização vai começar lenta e gradual e depois vai pegar velocidade”, agrega.

As movimentações de Semeghini e a dificuldade do governo de articular uma política consistente podem garantir a continuidade das operações do Ceitec no curto e médio prazo, mas a verdade é que mudanças são necessárias se a empresa quer ter um futuro a longo prazo.

O Ceitec está mais ou menos à deriva desde o impeachment da presidente Dilma e a crise econômica, quando sumiram o incentivo político e o dinheiro para a ideia de  transformar o Brasil em um polo de desenvolvimento de semicondutores (Eike Batista chegou a anunciar planos bilionários na área).

Mesmo durante as administrações petistas, que federalizaram a estatal em 2008, colocando-a sob a alçada do Ministério de Ciência e Tecnologia, já havia discussões mais ou menos abertas sobre o propósito de seguir investindo.

Em 2013, foi discutida publicamente a possibilidade de venda de parte de empresa, deixando o governo como sócio de uma PPP gerida pela iniciativa privada.

Ainda em 2009, o então presidente do Ceitec, Eduard Weichselbaumer, disse publicamente que a empresa só seria bem sucedida se fosse privatizada.

Weichselbaumer, um executivo alemão que foi o único profissional vindo da iniciativa privada para comandar o Ceitec, acabou saindo da empresa em 2010, em meio a choques com o Ministério de Ciência e Tecnologia.

A reportagem do Baguete procurou Weichselbaumer pelo Linkedin, para saber que perspectiva ele via para o futuro do Ceitec. O alemão, que segue residindo em São Francisco, onde atua no setor de eletroeletrônica, não teve papas na língua.

“É uma vergonha o que foi feito com o Ceitec nos últimos 10 anos. Administrar uma empresa não é tarefa para burocratas, professores universitários ou funcionários de ministério que querem um grande salário por nada. Essa é uma indústria especializada e altamente competitiva”, disse Weichselbaumer. “Sem um plano viável, essa instituição só pode ser fechada”.