Paulo Pedo, diretor de negócios digitais da Grendene. Foto: divulgação.

A Grendene, fabricante de marcas como Melissa, Grendha, Zaxy, Rider e Ipanema, começou a internalizar suas lojas virtuais e pretende ter o e-commerce com tecnologia totalmente desenvolvida em casa até janeiro de 2021.

Até então, todas as marcas da companhia tinham lojas virtuais hospedadas na plataforma de um fornecedor externo, do qual a empresa prefere não divulgar o nome. A empresa continua terceirizando a operação até o final do projeto de e-commerce proprietário.

“Foi um parceiro muito bom. Durante 20 anos a gente atuou com eles, mas a evolução do processo, se a gente quisesse dar saltos maiores, não poderia mais continuar nesse formato de revenda de produtos via um terceiro”, conta Paulo Pedo, diretor de negócios digitais da Grendene.

Segundo a empresa, ter um terceiro no meio da cadeia sempre diminui o contato com o consumidor e, trazendo isso para dentro de casa, é possível ter um processo mais próximo do cliente.

A mudança deve trazer ganhos de eficiência e operacionais, além de possibilitar uma melhor oferta para o consumidor através de uma maior amplitude de estoque, por exemplo, de acordo com a companhia.

A Grendene aposta há tempos em desenvolvimento interno quando o assunto é tecnologia. 

No tema software de gestão, por exemplo, a empresa implementou no final dos anos 90 o ERP da Datasul, desenvolvido de maneira altamente customizada desde então por uma equipe interna de TI. 

Em 2014, algumas partes foram migradas para o Totvs 11, mantendo as customizações em módulos como produção e logística que totalizam 70% do sistema.

A decisão se deu apesar do assédio de outros players de ERP como a SAP, que queriam oferecer a sua solução padrão de mercado. Até hoje, a Grendene está entre os maiores clientes da Totvs.

O primeiro e-commerce interno da Grendene já foi lançado em agosto e é da Zaxy, marca de calçados de plástico, como a Melissa, mas com um posicionamento diferente e preços mais baixos.

“Começou pela Zaxy porque ela é uma marca que tinha aderência, ou seja, vendia bem no canal, mas não é tão grande quanto a Melissa e a gente podia começar isso de forma mais consciente, fazendo um passo a passo” explica Pedo.

A segunda loja a entrar para a plataforma interna será da marca Melissa para os Estados Unidos, com lançamento em setembro. A Melissa foi a primeira calçadista a ter uma loja virtual no Brasil, em 2001.

Nos próximos meses, mais de sete lojas devem entrar do projeto. Para isso, a Grendene segue criando uma plataforma com todas as suas marcas em sua divisão de Digital Commerce. 

Atualmente, são 21 pessoas trabalhando no projeto, mas o número pode chegar a cerca de 60 ou 70 até o final deste ano, de acordo com a necessidade. 

Parte da equipe está no headquarter da Grendene, que fica em Farroupilha, município da serra gaúcha.

A outra está em Sobral, polo calçadista no interior do Ceará, onde fica a principal fábrica da empresa e os seus estoques. Para atender à demanda, outro centro de distribuição será inaugurado em Fortaleza.

De acordo com a Grendene, os investimentos na área tiveram início no ano passado e seguiram no primeiro semestre de 2020, mesmo com a pandemia do novo coronavírus.

“Os investimentos na área de digital não foram parados dentro da empresa. Durante a pandemia, com certeza a gente teve uma redução de investimentos, que foram congelados, mas na questão do digital a gente acelerou isso”, destaca Pedo.

Além da internalização das lojas virtuais, a empresa está investindo em dois outros projetos de transformação, com a ambição de percorrer cinco anos em dois. 

O primeiro é voltado para fomento interno da cultura digital, feito com a Universidade Grendene através de treinamentos que envolveram todas as áreas da companhia. Agora, está em estruturação um grupo multidisciplinar com cerca de 100 pessoas, que será responsável por difundir o tema entre os 18 mil colaboradores da companhia.

No segundo projeto, a empresa criou o Bergamotta Works, um laboratório de inovação localizado em Porto Alegre, onde a equipe trabalha com métodos ágeis e Minimum Viable Products (MVPs), ou produtos minimamente viáveis, em português.

Com o objetivo de desenvolver novas formas e canais de acesso ao consumidor, a empresa fez um funil que começou com 50 ideias de projetos e priorizou-os até chegar em 13, que estão em desenvolvimento atualmente.

Em alguns deles, a inovação deve ser realizada internamente, enquanto outros serão desenvolvidos junto a startups. Para isso, a Grendene é sócia fundadora do Instituto Caldeira, que faz parte do Pacto Alegre, iniciativa para promover um ambiente favorável à inovação na capital do Rio Grande do Sul.

A empresa quer trabalhar no processo de inovação aberta, onde se coloca um desafio e as startups que tiverem aderência passam a fazer parte do sistema de inovação. Assim, as startups devem entrar no processo de acordo com a demanda dos projetos do lab.

No Bergamotta Works, trabalham cinco pessoas e a ideia é chegar a sete até o final do ano.

“A tendência é que a gente chegue cada vez mais na omnicanalidade, com o consumidor escolhendo aonde ele quer comprar o nosso produto, seja no e-commerce, nas franquias, nos clubes Melissa, nas lojas multimarca ou até mesmo em outros canais que a gente nem imagina hoje”, projeta o diretor de negócios digitais da Grendene.

Fundada em 1971, a Grendene é detentora das marcas Melissa, Grendha, Zaxy, Rider, Cartago, Ipanema, Pega Forte e Grendene Kids. Em 2019, a companhia registrou lucro líquido de R$ 495 milhões.

A empresa possui cinco unidades industriais no Ceará, Bahia e Rio Grande do Sul, além 11 fábricas — com capacidade instalada para produzir 250 milhões de pares ao ano. Seus produtos alcançam 65 mil pontos de venda no Brasil e 60 mil fora do país.