Um bom lugar para colocar um data center? Foto: Divulgação/Itaipu.

O Ministério das Comunicações, a Itaipu Binacional e a Fundação Parque Tecnológico Itaipu-Brasil assinaram um acordo de cooperação para criar um “condomínio de data centers” no parque tecnológico localizado dentro da usina de energia.

O documento foi publicado no Diário Oficial no dia 29 de janeiro.

A iniciativa ainda está em seus passos iniciais. Foi criado o inevitável grupo de trabalho, para o qual ainda estão pendentes as nomeações dos representantes – o que deve demorar ainda mais em um momento de dança das cadeiras no governo federal.

Esse grupo definirá metas, cronograma e recursos necessários para desenvolver o projeto.

De qualquer maneira, a nota divulgada por Itaipu já estabelece em linhas gerais qual deverão ser as atribuições das partes.

Itaipu deverá realizar estudos de viabilidade de energia elétrica para os projetos selecionados e oferecer local físico para a implantação dos datacenters.

Isso parece fácil. De acordo com números de 2012, Itaipu sozinha é responsável 17,3%  de  toda  a energia consumida pelo Brasil. A usina era até esse ano a maior do mundo – foi desbancada pela chinesa Três Gargantas. Espaço também não será problema.

Custos de energia normalmente respondem por cerca de um terço da conta de um data center. A nota não menciona nada nesse sentido, mas em outros países é comum centros de dados se instalarem próximos a geradores de energia como uma maneira de obter descontos.

O Ministério das Comunicações ficou com a parte mais difícil: buscar isenções e deduções fiscais para os datacenters, oferecer serviços de conectividade de alta capacidade para os projetos e também incentivar o desenvolvimento nacional de aplicativos e serviços em nuvem.

No corrente clima econômico, parece complicado esperar isenções fiscais. Além disso, a conectividade pode ser um problema: Foz do Iguaçu, onde está Itaipu, fica no extremo oeste do Paraná, a mais de 600 km da capital Curitiba.

A resposta pode estar na Copel Telecom, braço de telecomunicações da estatal de energia elétrica paranaense Copel.

Em julho, Foz do Iguaçu se tornou a nona cidade paranaense a receber o serviço de internet ultrarrápida por meio de fibras ópticas para clientes residenciais e comerciais da empresa. 

As velocidades de transmissão para os usuários chegam a 100 Mbps. A Copel Telecom está presente em todos os 399 municípios do Paraná, atendidos a partir de uma rede de fibra óptica de mais de 25 mil km

Trazer data centers para o Brasil – hospedar no país dados relativos aos brasileiros, na verdade – é uma das obsessões recentes do governo federal, iniciada depois de vir a público as revelações sobre espionagem da NSA em dados de usuários de redes sociais, e, mais importante, nas ligações telefônicas da presidente Dilma Rousseff.

Em outubro, a Receita Federal anunciou que passaria a tributar serviços de armazenamento e processamento de dados adquiridos junto a provedores no exterior por pessoas físicas e jurídicas que adquirirem estes serviços. 

A cobrança incidirá os impostos de renda (IRPF retido em fonte), Cide-Royalties (Imposto de Intervenção no Domínio Econômico), PIS/Pasep-Importação, Cofins-Importação, assim como IOF e ISSQN.

Segundo avaliam especialistas da Under, empresa de data center sediada em Porto Alegre, a adição destes tributos podem somar à conta final das empresas mais de 50% do valor pago pelo serviço.

Hoje em dia, a contratação de serviços de data center no Brasil é cerca de 15% mais cara que em estruturas fora do país - isso sem contar as diferenças de qualidade de disponibilidade e velocidade, que lá fora costuma ser melhor.

Com a nova tributação, a conta muda: os serviços de centro de dados contratados localmente passam a ser 20% mais baratos que os de data centers no exterior.

As medidas tributárias substituíram um projeto mais duro. No calor do momento, em 2013, Dilma chegou a cogitar obrigatoriedade da criação de data centers locais para empresas provedoras de serviços de armazenamento em nuvem ou e-mail. 

O plano, apontado por muitos como impossível de ser implantado na prática, acabou saindo de cena.

Mesmo assim, diversas grandes multinacionais anunciaram investimentos para abrir ou ampliar centros de dados no Brasil, de olho em atender à demanda de soluções em nuvem para clientes nacionais. Na lista estão nomes como SAP, Oracle, IBM e Dell.

Caso o projeto de Itaipu vá para frente – o prazo é até 2019 – o governo passará a adotar uma política “cenoura e chicote”. Quem é o burro na equação é uma questão de opinião.