INDÚSTRIA

Chão de fábrica dá aula de tecnologia na Suzano

Grupo de funcionários criou sensor com potencial de retorno de R$ 29 milhões.

04 de março de 2026 - 06:40
Nathan Caressato, coordenador de DigitalTech da Suzano.

Nathan Caressato, coordenador de DigitalTech da Suzano.

A Suzano, considerada a maior empresa produtora de celulose de eucalipto do mundo, alterou suas rotinas de produção na unidade de Mucuri, na Bahia, por meio de um programa interno que visa dar aos funcionários a chance de melhorar os processos da empresa.

Por meio do chamado Digital Empowerment, realizado junto à Koru, empresa brasileira especializada em aprendizagem corporativa personalizada, a empresa adotou sensores que estimam em tempo real o teor de carbonato de cálcio residual em uma etapa da produção. 

Explicando de maneira simples, o cálcio residual é um resíduo gerado durante o processamento da madeira. Ficar de olho nele é fundamental para não gerar custos milionários com o processamento posterior e perda de eficiência no forno. 

Anteriormente, a fábrica de Mucuri fazia esse controle de forma manual, uma vez por turno. 

No Digital Empowerment, a empresa escolhe grupos de funcionários para resolver um determinado desafio real da companhia com tecnologia. Neste caso, o time escolhido contemplou cargos de operação, analistas juniores e consultores de processo. 

“A gente faz esse mix e as turmas já nascem com os projetos quase formatados. O problema veio como um tema e, a partir do primeiro mês, decantamos esse tema e começamos a formação logo em sequência”, conta Nathan Caressato, coordenador de DigitalTech da Suzano.

Com uma trilha de formação personalizada de 180 horas, o programa tem o objetivo de descentralizar as habilidades de tecnologia na companhia, concentrando os esforços justamente em quem tem contato diário com a operação.

“Estamos falando de um operador de painel ou um consultor de processos, um engenheiro júnior, uma pessoa que está no chão de fábrica, que tem uma função operacional. Ele atinge até uma camada de consultor, eventualmente um supervisor ou um coordenador. Não é muito a nossa intenção atingir esse público de primeira liderança, mas pode acontecer”, detalha Caressato. 

Trabalhando o pensamento analítico e tendo acesso ao ferramental de tecnologia, o objetivo é que esses colaboradores olhem para os problemas do dia-a-dia e enxerguem como resolvê-los.

“O conhecimento tácito da operação é 80%, 90% do resultado do projeto. Nós, enquanto tecnologia, ensinamos a desenvolver algo além, a usar ferramentas novas para eles terem uma nova ótica, um novo olhar sobre aquele desafio. Isso traz o sucesso total do programa”, afirma Caressato.

O Digital Empowerment considera o ensino de habilidades de análise, ciência e engenharia de dados, envolvendo a criação de produtos digitais como sistemas de predição e recomendação com Python e inteligência artificial generativa.

Após um ciclo de formação de cerca de sete meses, a formatura só é realizada quando o grupo entrega um projeto operacionalizando. No caso de Mucuri, isso aconteceu em maio de 2025 numa primeira versão. Em dezembro, o projeto já tinha uma segunda versão funcionando, feita como incremento pelos alunos. 

Na formatura, todos os grupos apresentam seus projetos para o CEO e a vice-presidência da companhia. O ganhador vai para o MIT fazer uma formação e, em 2025, a inovação baiana foi a vencedora.

Com o sistema automatizado na fábrica de Mucuri, a Suzano observou ganhos como a diminuição de falhas e paradas inesperadas, o que proporcionou uma produção mais estável. Além disso, a equipe ganhou mais tempo para realizar outras atividades.

Outro benefício observado foi o potencial em economia de gás natural, com ajustes no processo para usar apenas o necessário, o que reduz custos e torna a operação mais sustentável. No total, o potencial de retorno do projeto é de R$ 29 milhões.

O Digital Empowerment, programa de formação onde surgiu o projeto, já foi implementado em unidades da Suzano no Brasil, Estados Unidos, Europa e China. São mais 400 pessoas formadas, 60 projetos e um retorno total estimado em R$ 180 milhões.

Em um outro projeto, funcionários desenvolveram um algoritmo de visão computacional que interpreta imagens de satélite para estimar melhor as variáveis da operação florestal, entre elas o quanto a floresta está crescendo ou se existe alguma praga, por exemplo.

Além disso, grupos de RH desenvolveram soluções de automação, focando em busca ativa de candidatos dentro das plataformas para facilitar a descoberta de perfis muito específicos.

Para o chão de fábrica, também foi desenvolvido um aplicativo que facilita o registro de falhas dos equipamentos. A partir do momento que a ferramenta identifica qual equipamento falhou, ela já faz uma análise usando IA para apontar o que pode ter acontecido.

Fundada em 1924, a Suzano é uma empresa brasileira focada na produção de celulose, papel e soluções de base florestal, com forte atuação também em produtos de higiene, papel para impressão e embalagem.

Em 2019, a companhia adquiriu a Fibria, gigante brasileira líder global em celulose de eucalipto, formada pela fusão da Aracruz com a Votorantim Celulose. Atualmente, prepara uma parceria global por meio de uma joint venture com a Kimberly Clark, anunciada em junho de 2025, com conclusão prevista para meados de 2026.

Com 15 unidades industriais no Brasil, a Suzano tem seus produtos vendidos em mais de 100 países, alcançando mais de 2 bilhões de pessoas.

Já a Koru oferece soluções de capacitação personalizadas para empresas e profissionais. A companhia já impactou mais de 25 mil carreiras em mais de 300 clientes, incluindo nomes como Suzano, O Boticário, Alpargatas, iFood, XP e Ambev.