Amazon educa o consumidor. Foto: Reprodução

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O site brasileiro da Amazon está retornando buscas pelo termo “criado-mudo” com a informação que a expressão é de cunho racista desde a semana passada. 

“Criado mudo, não. O termo correto é mesa de cabeceira", apontava a Amazon em negrito, para depois explicar que criado-mudo é um termo "racista", que "surgiu para chamar escravos que ficavam parados ao lado da cama".

A reportagem do Baguete procurou a Amazon para esclarecer o contexto da ação, questionando se haviam outras expressões listadas e de onde a multinacional buscou as informações, mas não teve retorno até o fechamento dessa matéria. 

O problema é que a afirmação da Amazon sobre o nome do móvel não tem grande embasamento científico, para dizer o mínimo.

Um dos primeiros posts sobre o tema surgiu no Twitter na terça-feira, 4, tendo sido compartilhado até agora mais de 8 mil vezes, atingiu 82 mil likes, gerando um debate animado, mas de repercussões nem sempre positivas para a reputação da Amazon. 

A origem da informação de que a palavra criado-mudo tem cunho racista parece ser uma campanha de 2019 da loja de móveis Etna, que anunciou que deixaria de usar o termo como parte de uma campanha relativa ao Dia da Consciência Negra (a decisão se mantém até hoje, como também no caso da Amazon).

Segundo disse a marca na época, o nome criado-mudo remeteria a um escravo que passaria a noite "tomando conta" dos nobres, ao lado da cama. 

Em outras versões mais cruéis da história, o escravo em questão tinha a sua língua cortada para não falar para ninguém o que via no quarto. O nome teria surgido em 1820, em plena escravatura no Brasil.

Ainda neste ano, a agência de checagem de notícias Lupa publicou uma lista de termos de cunho racista incluindo essa versão, para depois se retratar com uma correção.

O site E-Farsas fez uma investigação sobre o tema, fazendo buscas nos principais dicionários atuais e também em de 1832, nenhum dos quais aponta essa origem para o nome.

Para o E-Farsas, “ao que tudo indica” a origem da explicação é mesmo a campanha da Etna de 2019. 

O site aponta como prova disso o fato de que não existem pesquisas do Google associando os termos “criado-mudo” e “escravos” antes de 2019, quando surgiu a campanha da Etna.

COMENTÁRIO

De uns anos para cá, grandes corporações tem adotado uma agenda agressiva de ações do que antes se chamava responsabilidade social, e agora atende pelo termo ESG.

Um dos exemplos mais visíveis desse esforço são as mobilizações para aumentar a diversidade de equipes, um tema particularmente espinhoso no setor de tecnologia.

Assim, muitas empresas tem apostado em cotas para negros ou mulheres, ou mesmo bancado programas de formação para públicos específicos, como o caso de transgêneros.

No caso do setor de tecnologia, muitas grandes empresas tem também patrocinado eventos, ou criado comitês internos para debater temas ligados à discriminação. 

O que essas iniciativas tem em comum é que elas são internas, demandam tempo e representam custos, para causar uma repercussão social talvez modesta frente ao investimento. 

Informar aos clientes de um site de comércio eletrônico que criado-mudo é um termo racista, por outro lado, demanda um investimento quase zero, frente ao qual qualquer repercussão entrega rapidamente um retorno de investimento.

O problema é que, na ânsia por “lacrar”, uma empresa pode se expor também ao ridículo, como faz a Amazon.

Independente de uma eventual pertinência da origem racista de “criado-mudo”, parece meio risível que uma empresa com recursos econômicos e tecnológicos quase inesgotáveis, conhecida por outro lado por práticas de trabalho controversas e, mais recentemente, pelos sonhos de exploração espacial do seu fundador, decida que dar lições bizantinas de etimologia é a melhor maneira de causar um efeito positivo no mundo.