Monique Fernandes, da Tagarela Comunicação. Foto: divulgação.

Muito me perguntam o motivo pelo qual me afastei do mercado de startups e o que me leva a não querer mais trabalhar no setor. Digo a vocês que foi uma série de motivos que estavam desalinhados com as minhas crenças e valores e que foram acontecendo ao longo desses oito anos atendendo startups.

Então, vou contar para vocês que motivos são esses que me levaram a querer sair desse mercado.

Eu comecei a trabalhar com startups muito antes delas se tornarem atrativas, por aqui, no Brasil. Na época, quem se interessava em criar uma startup eram os nerds desenvolvedores de software e eu caí de paraquedas nesse mundo.

Apesar de ter cursado o técnico em processamento de dados no ensino médio, a faculdade de jornalismo me levou para bem longe do mundo da tecnologia. Porém, em 2011, comecei a namorar um desenvolvedor e passei a frequentar os meetups de TI com ele, em pouco tempo, estávamos organizando o nosso.

Organizar esse evento foi uma vitrine e tanto para minha assessoria de imprensa. Afinal, a divulgação do meetup era feita pela minha empresa e o crescimento da mesma era diretamente proporcional ao crescimento do evento.

Em pouco tempo, eu tinha virado referência em assessoria de imprensa para startups. Me especializar nesse segmento não foi planejado. Simplesmente, aconteceu! Quando me dei conta, o meu portfólio inteiro era composto por startups, então, aproveitei o cenário e nadei de braçada enquanto esse oceano foi azul.

Nos oito anos a frente de uma assessoria de imprensa especializada em startups, atendi mais de 100 clientes (entre empresas, pessoas físicas, fundos de investimento, aceleradoras e eventos).

E isso me exigia cumprir algumas obrigações, como ir em praticamente a todos os eventos de startups e empreendedorismo que aconteciam no país, pois, ou estava acompanhando cliente, ou estava prospectando. Quando não estava fazendo os dois ao mesmo tempo!

Circular em muitos ambientes e lidar com muitas pessoas, me fez ter acesso a muitas informações e muitas histórias de bastidores. Pois, como eu costumo dizer: para padre, psicólogo, advogado e assessor de imprensa, você não pode mentir!

Com o tempo virei um hub de informações sobre o mercado, alguns amigos diziam que quando eles queriam saber o que estava acontecendo no meio, era só me perguntar. Eu sempre sabia quem estava contratando, ou tinha algum profissional para indicar à alguma vaga de trabalho.

O grande problema é que, nem todas as histórias eu podia sair contando por aí. Fosse por envolver diretamente algum cliente meu, ou porque a história era tão escabrosa que não poderia ser contada. E como eu não estava a fim de responder a um processo, muitas eu guardei para mim.

Ter acesso a tanta informação não fez bem para a minha saúde mental, pois, na prática, eu percebi que o mundo de startups não tinha nada de lindo e maravilhoso quanto era vendido para fora dele.

É um meio tão tóxico quanto o corporativo tradicional. A diferença é que ele é tóxico com videogame e happy hour bancado pela empresa. Talvez a geladeira de cerveja gelada esteja ali para te ajudar a diluir no álcool os excessos que acontecem no meio.

Tomar consciência de que eu ajudava alimentar esse sistema, com as matérias que conseguia para os meus clientes, me fez entrar em um grande conflito interno. Entrei em uma crise existencial, que me levou a uma exaustão e, consequentemente, ao Burn-out.

 

Investidor-Anjo ou Demônio?

Nove entre 10 empreendedores querem um investidor para sua startup, porém, a verdade é que tem muita gente no Brasil que se diz investidor de alto risco, mas que não quer assumir risco de verdade. Tem muito investidor-anjo que faz contrato de empréstimo, ao invés de investimento. E quando o negócio não vai para frente, o pseudo-investidor cobra o valor investido do empreendedor tal qual um agiota.

Já vi, nas minhas mãos, contrato de investimento em que o fundador só tinha 20% da empresa e outros 80% eram do investidor que aportou a vultosa quantia de 20 mil reais. Já vi contrato em que, se o negócio desse errado, nada ficaria com o empreendedor que trabalhou noite e dia para que a empresa desse certo.

Absolutamente tudo que pudesse valer alguma coisa financeiramente, como: a marca, o código, a base de dados etc., seriam do investidor que iria tentar vender e para buscar recuperar, de alguma forma, aquele o investimento feito.

Na prática, esse tipo de investidor compra uma mão de obra barata -diria que quase de graça-, para trabalhar para ele e o risco fica só do lado empreendedor que perdeu o tempo investido naquele projeto/empresa. A famosa parceria Caracu, que é aquela que o empreendedor entra com a rima, conhece?

 

Ecossistema de Startups: uma terra de egos

Atender diversas startups me fez descobrir que muitos empreendedores não querem a assessoria de imprensa para alavancar o serviço, ou o produto que vende, mas para alimentar o próprio ego. Tem muitos empreendedores que usam o dinheiro do investidor em benefício da própria imagem e a assessoria, que era para ser da empresa, trabalha para alavancar o nome do fundador da startup.

Tem gente que usa a assessoria de imprensa para aplacar seus traumas, como já escutei de cliente dizendo que queria ir no “Programa do Jô” para mostrar à avó que era melhor do que o primo. Sério, gente! Isso é real! Isso sem contar nos empreendedores de palco, mas esse é um papo para um outro texto.

Sem contar os inúmeros CEOs de cartão de visita e apresentação de PowerPoint, que lotam os eventos e nunca desenvolvem aquela ideia e ainda ficam com raiva de quem se preocupou em executar ao invés de só falar. Confesso que esse nem foi o perfil que mais me tirou do sério durante esses anos no ecossistema de startups.

Os que me deixam bem irritada, são aqueles que fazem de tudo para se autopromover. Inclusive ficar cercando organizadores de evento, intimando para ser convidado e aparecer no line-up do evento. Seja para mentorar, ou palestrar, o que importa é o nome estar no programa do evento para depois colocar no LinkedIn e usar como uma validação de autoridade no mercado.

Ainda tem aqueles que nunca executaram nada, vivem de ganhar concursos de startups apenas com slides e depois começam a viajar o país para dar mentoria e palestras de como empreender, sem nunca ter tirado a startup do PPT.

No ecossistema ainda tem aquele perfil que a única meta é conseguir investimento, ao invés de cliente. Acredite, é muito comum no ecossistema ter empresas que são especialistas em montar deck de investimento e fazer Pitch para investidor e, quando você pergunta sobre faturamento, não existe essa informação pelo simples fato de que não tem quem pague pelo serviço, ou produto e nem tem previsão para começar a faturar.

Se os aspirantes a fundador de startup soubessem o quanto é ruim pegar dinheiro com investidor, estariam concentrando todos os esforços em captar clientes, ao invés de focar em encontrar um Venture Capital.

 

O tóxico ambiente do ecossistema de startups que envolve assédio e estupro

O ambiente cool dos escritórios -que é muito usado como parâmetro de diferenciação do mercado tradicional-, por menos grana que a startup tenha, é quase regra ter uma geladeira com cerveja, guloseimas à vontade e pufes para um cochilo no meio da tarde. Esse espaço, aliado a flexibilidade de horários, é muito usado para conseguir mão de obra qualificada com salário abaixo do mercado.

Porém, somente com o dia a dia, os candidatos descobrem que é muito comum rolar assédio moral e exploração de mão de obra. Utilizando-se do argumento de que “você está trabalhando para construir algo incrível e que vai impactar a vida das pessoas,” muitos funcionários são obrigados a fazer reuniões às 23h, a ter que responder o chefe no WhatsApp de madrugada, além de trabalhar feriados e fins de semana sem direito a folgas.

Ouso dizer que, no meio de startups tem tantos profissionais com Burn-out, quanto no meio corporativo tradicional, se esse número não for maior até.

Um ponto que ganhou notoriedade há alguns anos, mas que foi rapidamente abafado, é a normalidade do assédio sexual no setor. Seja em eventos, entre investidor e empreendedora, como o habitual assédio de chefe para funcionária.

E não estou falando de cantada barata, estou falando de investidor que se utiliza da sua posição de vantagem e condiciona o sexo ao investimento na startup. Estou falando de mentor assediando abertamente participantes dentro de evento de startups, quando deveria estar orientando sobre o modelo de negócios dos participantes.

Estou falando de caso de estupro em que boa parte do mercado sabe o que, quando, onde e quem são o estuprador e a vítima, mas ninguém fez absolutamente nada sobre. Pior, fizeram de tudo para abafar o caso.

O ecossistema que diz ser inclusivo, não passa de um ambiente machista e misógino como toda a nossa sociedade. Formado, em sua maioria, por homens, héteros, brancos e com grana, eles se protegem, se defendem. Quem arca com as consequências, como sempre, é a vítima. A mulher, que foi excluída do meio por ter divulgado o ocorrido.

Pessoas passando a perna em sócio, desviando dinheiro da empresa, falsificação de documentos e casos de estelionato que são tão comuns no meio da ditas empresas comuns, também acontecem no meio de startups.

O que mais a gente vê nesse mercado, são empreendedores que não tem dinheiro para quitar a folha de pagamento do próximo mês, mas mantém uma pose e continuam ostentando para o mercado não descobrir que a empresa vai mal.

A coisa mais comum que vemos nos bastidores são empresas (sim, as empresas) que maquiam os números para as matérias. Posso afirmar que 99% das vezes em que sai uma matéria sobre investimento e que o valor é divulgado, ele foi inflado. Conselho para você, caro leitor: pode descontar em torno de 20% a 30% (no mínimo) do número para se ter uma noção do real valor do aporte.

 

O ecossistema de startups está longe de ser um mundo cor de rosa

O famoso ecossistema de startups não tem nada de mágico e é bem parecido com o que já conhecemos de ambiente tradicional de negócios. Eu já fui uma dessas pessoas que acreditava que estava gerando um impacto positivo no mundo. Eu realmente acreditava que meu trabalho iria contribuir para melhorar a vida de diversas pessoas.

Quando me vi, estava fazendo parte da engrenagem que contribuía para alimentar esse velho sistema e que vai contra aos valores que me foi passado pela minha família. Os quais eu carrego até hoje. Isso afetou demais a minha saúde mental e me levou ao Burn-out.

Depois de muita terapia, eu entendi que precisava me afastar desse ambiente tóxico e que dinheiro algum compraria a minha saúde mental. Esse texto não é para desencorajar ninguém a abrir uma startup.

O objetivo desse texto é trazer um pouco de realidade para quem quer entrar nesse meio. Quero que você entre sabendo que não é um ambiente colorido, cheio de unicórnios fofinhos e nuvens de algodão doce. Você não precisa fazer o mesmo que fiz, mas não fazia sentido algum continuar tentando me encaixar em um lugar que não cabia. Decidi parar de me violentar e buscar o que fazia sentido na minha vida.

Hoje, eu tenho menos dinheiro que antes, mas tenho saúde mental e felicidade. Afinal, caras são as coisas que o dinheiro não pode comprar.

 

*Por Monique Fernandes, jornalista apaixonada por histórias sinceras da Tagarela Comunicação.