Bolsonaro parece inclinado a dizer "não" para a Huawei. Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro sinalizou que pode deixar a Huawei de fora da infraestrutura do 5G brasileiro, durante uma das suas lives no Facebook nesta quinta-feira, 11.

Durante a transmissão, Bolsonaro disse que o certame levará em conta a “soberania, a segurança de dados e a política externa”.

Não é preciso ser um grande leitor de entrelinhas para ver que isso significa excluir ou limitar a participação da Huawei na disputa, prevista para acontecer no primeiro semestre de 2021

A medida alinharia o Brasil com os Estados Unidos, atualmente em meio a uma guerra comercial com a China na qual a infraestrutura do 5G é uma das principais batalhas.

Os americanos querem que países aliados não comprem tecnologia da Huawei para o 5G, afirmando que o governo chinês pode usar o equipamento para fazer espionagem.

O presidente Donald Trump chegou a proibir as teles americanas de adquirir aparelhos da gigante chinesa, mas teve de recuar por decisão judicial.

Segundo a Folha de São Paulo, o posicionamento de Bolsonaro foi influenciado pelo ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, general Augusto Heleno.

De acordo com o jornal, Araújo recomendou em um parecer o banimento completo da Huawei, mas sem apresentar evidências técnicas de falhas de segurança que permitissem ataques de hackers ou roubo de dados pelo próprio fabricante.

No documento, Araújo defende que o Brasil não sofreria nenhum tipo de sanção comercial porque a China possui como maiores fornecedores de matérias-primas e alimentos os Estados Unidos, o Brasil e a Austrália. 

Para ele, se os três se juntassem em apoio a Donald Trump, os chineses não teriam saída e continuariam importando desses países.

A ala ideológica do governo afirma que a Huawei, maior empresa de equipamentos de telecomunicações do mundo, é controlada por autoridades da China.

O parecer de Araújo teria contrariado e surpreendido os técnicos de sua pasta, que estavam alinhados com o Ministério da Ciência e Tecnologia, que seria favorável à participação em pé de igualdade da Huawei.

O Ministério de Ciência e Tecnologia, em tese, defenderia a participação da Huawei como forma de defender a continuidade no país de dezenas de acordos de pesquisa da Huawei com diferentes universidades.

Na prática, porém, o ministro Marcos Pontes já lavou as mãos sobre o assunto em fevereiro de 2019, ao afirmar que a decisão era “geopolítica”. 

O Ministério da Ciência e Tecnologia não está com essa bola toda: na semana passada, a parte de Comunicações foi retirada para recriar o Ministério de Comunicações sob o comando de Fábio Farias (PSD-RN), o genro de Silvio Santos. Pontes teria ficado sabendo da decisão pela imprensa.

Talvez o maior potencial de resistência venha da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, para quem qualquer tipo de restrição à China na oferta de equipamentos de rede 5G terá efeitos danosos sobre o desempenho do agronegócio, único setor ativo neste momento de pandemia. 

Cristina, no entanto, nem sequer participou do encontro, e fontes ouvidas pela Folha afirma que a ministra considera que as ameaças à China passaram do limite e cogita deixar o cargo se esse embate persistir.

Vale lembrar que ainda em março um dos filhos do presidente, o senador Eduardo Bolsonaro, criou uma crise diplomática com a China ao acusar o país de ser culpado pela pandemia do coronavírus.

De acordo com a Folha, o maior defensor do embargo à China é o general Heleno, do GSI. Partiu dele a elaboração de um decreto, assinado por Bolsonaro em fevereiro, que instituiu o Plano Nacional de Segurança Cibernética.

Entre as regras do plano, está a determinação que, em uma mesma área geográfica, ao menos duas empresas concorrentes deverão operar com equipamentos fornecidos por fabricantes diferentes.

Cabe à Anatel, neste momento, preparar uma regulamentação dessas regras que terão impacto sobre o leilão do 5G. 

As operadoras, que operam redes nas quais o equipamento da Huawei equivale a metade do total, estão se movendo para poder seguir comprando dos chineses, com declarações públicas a favor da companhia.

Os líderes das operadoras podem ser uma peça chave, uma vez que a liderança da multinacional no país é formada por um contingente algo anônimo de executivos chineses, aparentemente sem maiores contatos locais.