Se a CA no Brasil fosse essa laranja, só teria sobrado um dos gomos. Foto: Pixabay.

Os cortes que a Broadcom vem fazendo na CA em todo o mundo chegaram com força no Brasil em novembro.

A informação apurada pelo Baguete é que a redução da equipe pode chegar a 70%, entre aqueles que já saíram e os que estão na companhia por prazo limitado, cumprindo os chamados “assignments”, tarefas com prazos de entrega entre três e seis meses, ao final dos quais o funcionário é desligado.

Confirmar as informações ou obter qualquer posição sobre o assunto é complicado. 

Segundo o Baguete apurou, não existe mais área de comunicação e marketing no Brasil (uma dezena de profissionais teriam sido demitidos só nessa parte, que costuma ser um alvo na famosa “busca de sinergias”).

Ao longo das últimas semanas, o site brasileiro da CA listava como contato de imprensa uma profissional americana e depois um contato geral da Broadcom. Nenhum dos dois retornou contatos do Baguete.

Em um post de despedida publicado no Linkedin, um dos demitidos da CA mencionou os nomes de nada menos que 101 colegas e ex-colegas da empresa. 

Visando ter uma base de comparação para os rumores com um amostragem confirmada de pessoal demitido, a reportagem do Baguete pesquisou a lista completa no Linkedin. Foram encontrados 91 perfis.

Dentro desse grupo, 30 já haviam saído antes da aquisição da CA pela Broadcom, um negócio de US$ 18,9 bilhões que surpreendeu o mercado em julho.

Dos 61 restantes, 17 haviam informado a saída da CA ou a entrada em outra empresa no mês de novembro, quando teria ocorrido o corte por parte da Broadcom. Outros quatro saíram nos meses seguintes à compra. 

Só nove mudaram seus perfis para informar que agora estão trabalhando na Broadcom. 

Outros 35 informam em seu perfil que seguem na CA. 

Esse grupo pode incluir profissionais nos tais “assignments”, empregados que saíram da CA mas não atualizaram a saída no seu perfil (uma prática comum) ou ainda que estão com os empregos garantidos, mas se esqueceram ou preferem não atualizar o empregador.

Da lista, alguns dos nomes mais chamativos a terem saído são o de João Fábio Valentin, VP para América Latina de DevOps e Automação e o diretor interino de vendas, Júlio Carvalho.

Dentre os que saíram antes do corte, um dos nomes que chama atenção é o de João Alberto Oliveira, ex-líder para desenvolvimento de parceiros da CA para América Latina, contratado como novo gerente de canais na região da ASG.

Marcel Bakker, ex-country manager para o Brasil, atualizou seu perfil para diretor de vendas para América Latina da Broadcom.

Seja qual for a dimensão exata do corte, ele faz parte de uma movimentação mundial da Broadcom, que cortou cerca de 40% do total da força de trabalho nos Estados Unidos, demitindo 2 mil pessoas.  

A estratégia da Broadcom para a CA foi dita com todas as letras pelo seu CEO, Hock Tan, durante conferência com analistas no começo do mês: cortar tudo que der e aumentar a margem de lucro focando só nos grandes clientes com aplicações de mainframe.

“Os dias de tentar emplacar novos produtos com novos clientes passaram. Vamos focar toda nossa atenção em renovar a venda de produtos para clientes centrados em mainframe, que são as maiores empresas do mundo e quem mais gasta em TI”, resumiu Tan.

De acordo com o CEO, a ideia é focar nas 500 maiores empresas e fazer um “up sell” de software, dentro de um modelo “buffet livre”.

Meses antes da conferência de Tan, a Broadcom já mostrou disposição para mexer no universo CA, cancelando o CA World, evento mundial da companhia, faltando apenas oito semanas para o mesmo.

O CA World deveria ter acontecido em novembro em Miami. Eram esperadas quatro mil pessoas.

A CA foi fundada ainda nos anos 70 para fornecer software para mainframes.

Desde então, a CA diversificou bastante sua oferta por meio de mais de 200 aquisições, entrando nos mercados de segurança, gerenciamento de identidades, monitoramento de performance de aplicações, automatização de desenvolvimento de software.

O negócio de mainframe ainda é responsável por mais da metade da receita da CA, que nos últimos anos tem girado em torno de US$ 4 bilhões, os mesmos níveis de 1997.

A empresa parece estar meio à deriva faz tempo. Em junho do ano passado, chegou a ser especulado um fechamento de capital da companhia e uma fusão com a BMC, uma das suas principais concorrentes. A BMC estava na mesma e teve o capital fechado por fundos ainda em 2013.

Com a “volta às raízes”, a Broadcom está preparada para diminuir o faturamento da empresa, que no último ano fiscal foi de US$ 4,24 bilhões, para algo em torno de US$ 3,5 bilhões, crescendo a partir do reposicionamento.

Um exemplo do reposicionamento foi a venda recente para o fundo Thoma Bravo da startup de teste de aplicações na nuvem Veracode Software por US$ 950 milhões (a CA comprou a empresa em março de 2017 por US$ 617 milhões).

Outro passo foi fazer o outsourcing do negócio de serviços da CA para HCL. No último ano fiscal, o faturamento com serviço foi de US$ 311 milhões, mas o custo da operação foi de US$ 298 milhões.

A Broadcom quer podar as tentativas de diversificação do negócio, cortar partes menos lucrativas (a meta é reduzir os custos de US$ 2,1 bilhão para US$ 900 milhões), deixando no final uma empresa menor e bem mais lucrativa.