Intenção é reduzir ocupação nos call centers. Foto: Algar Tech.

A Algar Tech, vai mandar 50% de seus colaboradores de contact center em casa a partir da segunda-feira, 23, em uma medida para prevenir o avanço da pandemia do coronavírus.

A companhia, uma das maiores do setor no país, já havia anunciado que enviaria para casa grupos de risco como idosos, pessoas com complicações pré-existentes de saúde e grávidas.

A política agora está sendo ampliada, divulgou a empresa em nota neste sábado, 21. A Algar Tech não deu maiores informações sobre o tamanho total do contingente que irá para casa ou os critérios pelos quais a escolha será feita.

A Algar Tech disse apenas que está trabalhando para uma migração ao home office, instalando a infraestrutura necessária na casa dos funcionários. Enquanto isso, os colaboradores vão aguardar.

Para quem permanece nas instalações da empresa, estão sendo adotadas medidas preventivas como espaçamento entre as posições de trabalho e o revezamento com folgas remuneradas, sobre as quais a Algar Tech não abriu detalhes sobre a extensão. Treinamentos presenciais e processos seletivos também foram suspensos.

Com a decisão de aprofundar as suas medidas de combate à Covid-19, a está indo além das medidas anunciadas pela Associação Brasileira de Telesserviços (ABT), que representa as maiores empresas de contact center do país.

Com 18 associadas, incluindo a própria Algar Tech, além de outras grandes como Atento, Almaviva e Flex, a ABT divulgou no começo da semana, e reiterou nesta sexta-feira, 20, um pacote de medidas mais brando do que o implementado agora.

Em relação a home office, a medida estava prevista para trabalhadores com sessenta anos ou mais, com doenças cardíacas, diabete ou outras doenças graves, ou para atividades nas quais isso seria “possível do ponto de vista técnico”.

Fora desse grupo, que provavelmente não é muito grande em um setor com uma mão de obra jovem, as providências se dariam no local de trabalho, incluindo intensificação da higienização dos ambientes comuns e postos de trabalho individuais; fornecimento de kit individual de higienização e monitoramento dos profissionais.

A Algar Tech tem 70 escritórios no Brasil, empregando 12 mil profissionais. A decisão da empresa de adotar uma linha de prevenção mais intensa do que a divulgada pela ABT, incluindo assumir o prejuízo de funcionários parados, não surge do nada.

Ao longo da semana passada, na medida em que o número de casos de coronavírus aumentava no país, funcionários de call centers em diversas cidades, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Goiânia protestaram demandando medidas das empresas para evitar a contaminação pelo coronavírus.

Em São Paulo, segundo relata o UOL, o protesto foi na frente Almaviva, um dos principais call centers do país, com 37 mil empregados.

Os protestos em Goiânia e Salvador foram cobertos pelo G1, que não chegou a informar os nomes da empresas na frente da quais teriam ocorrido as manifestações.

Segundo o relato do G1 e do UOL, os funcionários reclamam de falta de álcool em gel, além de falta de higienização dos headsets, equipamento telefônico com microfone embutido que é compartilhado pelos funcionários ao longo dos diferentes turnos, e das posições de atendimento, conhecidas no jargão do setor como PAs.

No Rio de Janeiro, aconteceram protestos na frente da NeoBPO, segundo informa uma nota do Sinttel-Rio, na qual se menciona "higienização inadequada dos ambientes". 

Também no Rio, teriam havido protestos na frente da Atento, sobre os quais não há maiores informações, apenas um vídeo postado por militantes da Unidade Popular, um partido radical de esquerda, no qual pessoas bloqueiam o trânsito gritando slogans sobre melhores condições de trabalho.

Os protestos aconteceram na frente de pelo menos duas empresas filiadas à ABT, o que parece indicar que as medidas não estão sendo tomadas em um ritmo ou intensidade suficientes para tranquilizar os funcionários.

O problema pode ser muito mais extenso. De acordo com a ABT, os associados da entidade empregam 380 mil funcionários. 

O setor de call center como um todo, no entanto, é muito mais fragmentado, e, de acordo com estimativas de outras entidades setoriais, teria como 1,6 milhão de funcionários no país.

As empresas de call center devem ter um grande aumento da carga de trabalho nos próximos dias, na medida em que medidas de quarentena comecem a fechar o atendimento presencial em uma série de setores e a população.

Isso deve levar ao aumento do número de turnos e na ocupação de posições ociosas dentro dos call centers, estruturas refrigeradas nas quais os funcionários sentam lado a lado em centenas. 

A migração de funcionários para home office para além dos perfis de risco parece pouco provável, porque envolveria projetos de tecnologia que não poderiam acontecer em tempo viável - mesmo empresas de TI de grande porte no país tem dificuldade em transferir os seus colaboradores para home office.

Com o número de casos de coronavírus no país prestes a ter um aumento exponencial nos próximos dias, a situação nos call centers pode se deteriorar.

A preocupação tem precedentes. Na Coréia do Sul, um país que é apontado como um sucesso na gestão da crise do coronavírus, as autoridades relataram um novo pico de casos nessa semana.

Ao todo, 242 novos contágios foram reportados pelo país asiático, 90 deles oriundos de apenas um call center, onde a doença eclodiu esta semana.

Todos os 200 funcionários foram testados e a expectativa é que o número de infectados aumente.