Bolsonaro resolveu endurecer com a Huawei. Foto: Isac Nóbrega/PR

A Huawei lançou uma nota para a imprensa defendendo sua participação na implantação da tecnologia 5G, ameaçada recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro. 

Como a Huawei fez isso, sem aumentar a indisposição com o governo federal? É simples: a gigante chinesa apostou em uma grande indireta, na qual frisa a sua presença e comprometimento com o mercado brasileiro, mas não menciona nenhuma vez a sigla 5G, ou o nome do presidente Bolsonaro.

“O Brasil sempre teve um mercado aberto a concorrência a justo no setor de TIC, beneficiando todos na transformação digital em andamento e nos esforços para avançar para a Indústria 4.0, Agricultura 4.0, Saúde 4.0 e Smart City 4.0 no País. A Huawei espera contribuir com a economia e a sociedade brasileira nesse processo”, afirma o texto, no momento em que passa mais perto de reconhecer do que realmente está falando.

Como fica implícito, a Huawei considera que a continuidade dessas condições está ameaçada.

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro sinalizou que pode deixar a Huawei de fora da infraestrutura do 5G brasileiro, durante uma das suas lives no Facebook.

Durante a transmissão, Bolsonaro disse que o certame, previsto para acontecer no primeiro semestre de 2021, levará em conta a “soberania, a segurança de dados e a política externa”.

Não é preciso ser um grande leitor de entrelinhas para ver que isso significa excluir ou limitar a participação da Huawei na disputa.

A medida alinharia o Brasil com os Estados Unidos, atualmente em meio a uma guerra comercial com a China na qual a infraestrutura do 5G é uma das principais batalhas.

Os americanos querem que países aliados não comprem tecnologia da Huawei para o 5G, afirmando que o governo chinês pode usar o equipamento para fazer espionagem. Até agora, poucos países mostraram muito entuasiasmo pela proposta, que no final das contas favorece fabricantes americanos como a Cisco.

O presidente Donald Trump chegou a proibir as teles americanas de adquirir aparelhos da gigante chinesa, mas teve de recuar por decisão judicial.

Segundo a Folha de São Paulo, o posicionamento de Bolsonaro foi influenciado pelo ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, general Augusto Heleno.

De acordo com o jornal, Araújo recomendou em um parecer o banimento completo da Huawei, mas sem apresentar evidências técnicas de falhas de segurança que permitissem ataques de hackers ou roubo de dados pelo próprio fabricante.

No documento, Araújo defende que o Brasil não sofreria nenhum tipo de sanção comercial porque a China possui como maiores fornecedores de matérias-primas e alimentos os Estados Unidos, o Brasil e a Austrália. 

Para ele, se os três se juntassem em apoio a Donald Trump, os chineses não teriam saída e continuariam importando desses países.

A ala ideológica do governo afirma que a Huawei, maior empresa de equipamentos de telecomunicações do mundo, é controlada por autoridades da China.

A medida também tem detratores, entre eles a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, para quem qualquer tipo de restrição à China na oferta de equipamentos de rede 5G terá efeitos danosos sobre o desempenho do agronegócio, único setor ativo neste momento de pandemia. 

Coincidência ou não, a imprensa chinesa “descobriu” recentemente a “devastação causada na Amazônia” pelas plantações de soja, commodity que é o principal item da pauta de exportações brasileira para a China.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também saiu em defesa da Huawei, dizendo que a "politização sobre o 5G" pode encarecer o gasto dessa nova tecnologia.

“Espero que a gente deixe a política de fora e entenda a importância da concorrência para beneficiar o cidadão. Nesse caso, se não tiver a concorrência no produto mais barato, quem vai pagar a conta é a sociedade brasileira”, argumentou Maia, ao participar de uma live promovida por empresários.

As operadoras, que operam redes nas quais o equipamento da Huawei equivale a metade do total, estão se movendo para poder seguir comprando dos chineses. Na última semana, declarações públicas sobre o tema vieram da Algar Telecom e TIM.

O que estava faltando até o momento era uma palavra da Huawei, cuja liderança no país é formada por um contingente algo anônimo de executivos chineses.

Ela veio no formato da nota, que não é assinada ou contém maiores explicações sobre seu propósito. O texto contém algumas informações conhecidas sobre a Huawei em nível mundial, mas traz alguns dados menos conhecidos sobre a operação da empresa no país.

A Huawei está no Brasil há 22 anos e tem 1,2 mil funcionários no país e atua com 500 parceiros, os quais empregam mais 15 mil pessoas. 

A empresa também destacou seus projetos de pesquisa e desenvolvimento com CPQD e Inatel e a formação de 30 mil profissionais em academias em cooperação com instituições de ensino.

Em um evento recente, o  diretor de marketing para operadoras para a transformação digital da Huawei, Marcelo Motta, foi um pouco mais direto ao ponto do que a comunicação oficial da empresa.

“Temos centros globais na China, em Bruxelas, diveros hubs locais espalhados em no Reino Unido, Alemanha, Canadá, Emirados Árabes. E mesmo com essa campanha que tem sido feita, nossos clientes continuam nos suportando, em busca da melhor tecnologia e de maior escala. Nossos maiores mercados continuam preservados. A racionalidade parece que está acontecendo na maior parte deles”, disse Motta.

Poderá a racionalidade (alguma versão dela) triunfar também no Brasil? É sempre uma aposta arriscada.