RESPOSTA

Huawei se defende da ameaça de Bolsonaro

24/06/2020 05:55

Ameaçada de ficar fora do leilão do 5G pelo presidente, chinesa dispara uma longa indireta.

Bolsonaro resolveu endurecer com a Huawei. Foto: Isac Nóbrega/PR

Tamanho da fonte: -A+A

A Huawei lançou uma nota para a imprensa defendendo sua participação na implantação da tecnologia 5G, ameaçada recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro. 

Como a Huawei fez isso, sem aumentar a indisposição com o governo federal? É simples: a gigante chinesa apostou em uma grande indireta, na qual frisa a sua presença e comprometimento com o mercado brasileiro, mas não menciona nenhuma vez a sigla 5G, ou o nome do presidente Bolsonaro.

“O Brasil sempre teve um mercado aberto a concorrência a justo no setor de TIC, beneficiando todos na transformação digital em andamento e nos esforços para avançar para a Indústria 4.0, Agricultura 4.0, Saúde 4.0 e Smart City 4.0 no País. A Huawei espera contribuir com a economia e a sociedade brasileira nesse processo”, afirma o texto, no momento em que passa mais perto de reconhecer do que realmente está falando.

Como fica implícito, a Huawei considera que a continuidade dessas condições está ameaçada.

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro sinalizou que pode deixar a Huawei de fora da infraestrutura do 5G brasileiro, durante uma das suas lives no Facebook.

Durante a transmissão, Bolsonaro disse que o certame, previsto para acontecer no primeiro semestre de 2021, levará em conta a “soberania, a segurança de dados e a política externa”.

Não é preciso ser um grande leitor de entrelinhas para ver que isso significa excluir ou limitar a participação da Huawei na disputa.

A medida alinharia o Brasil com os Estados Unidos, atualmente em meio a uma guerra comercial com a China na qual a infraestrutura do 5G é uma das principais batalhas.

Os americanos querem que países aliados não comprem tecnologia da Huawei para o 5G, afirmando que o governo chinês pode usar o equipamento para fazer espionagem. Até agora, poucos países mostraram muito entuasiasmo pela proposta, que no final das contas favorece fabricantes americanos como a Cisco.

O presidente Donald Trump chegou a proibir as teles americanas de adquirir aparelhos da gigante chinesa, mas teve de recuar por decisão judicial.

Segundo a Folha de São Paulo, o posicionamento de Bolsonaro foi influenciado pelo ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, general Augusto Heleno.

De acordo com o jornal, Araújo recomendou em um parecer o banimento completo da Huawei, mas sem apresentar evidências técnicas de falhas de segurança que permitissem ataques de hackers ou roubo de dados pelo próprio fabricante.

No documento, Araújo defende que o Brasil não sofreria nenhum tipo de sanção comercial porque a China possui como maiores fornecedores de matérias-primas e alimentos os Estados Unidos, o Brasil e a Austrália. 

Para ele, se os três se juntassem em apoio a Donald Trump, os chineses não teriam saída e continuariam importando desses países.

A ala ideológica do governo afirma que a Huawei, maior empresa de equipamentos de telecomunicações do mundo, é controlada por autoridades da China.

A medida também tem detratores, entre eles a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, para quem qualquer tipo de restrição à China na oferta de equipamentos de rede 5G terá efeitos danosos sobre o desempenho do agronegócio, único setor ativo neste momento de pandemia. 

Coincidência ou não, a imprensa chinesa “descobriu” recentemente a “devastação causada na Amazônia” pelas plantações de soja, commodity que é o principal item da pauta de exportações brasileira para a China.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também saiu em defesa da Huawei, dizendo que a "politização sobre o 5G" pode encarecer o gasto dessa nova tecnologia.

“Espero que a gente deixe a política de fora e entenda a importância da concorrência para beneficiar o cidadão. Nesse caso, se não tiver a concorrência no produto mais barato, quem vai pagar a conta é a sociedade brasileira”, argumentou Maia, ao participar de uma live promovida por empresários.

As operadoras, que operam redes nas quais o equipamento da Huawei equivale a metade do total, estão se movendo para poder seguir comprando dos chineses. Na última semana, declarações públicas sobre o tema vieram da Algar Telecom e TIM.

O que estava faltando até o momento era uma palavra da Huawei, cuja liderança no país é formada por um contingente algo anônimo de executivos chineses.

Ela veio no formato da nota, que não é assinada ou contém maiores explicações sobre seu propósito. O texto contém algumas informações conhecidas sobre a Huawei em nível mundial, mas traz alguns dados menos conhecidos sobre a operação da empresa no país.

A Huawei está no Brasil há 22 anos e tem 1,2 mil funcionários no país e atua com 500 parceiros, os quais empregam mais 15 mil pessoas. 

A empresa também destacou seus projetos de pesquisa e desenvolvimento com CPQD e Inatel e a formação de 30 mil profissionais em academias em cooperação com instituições de ensino.

Em um evento recente, o  diretor de marketing para operadoras para a transformação digital da Huawei, Marcelo Motta, foi um pouco mais direto ao ponto do que a comunicação oficial da empresa.

“Temos centros globais na China, em Bruxelas, diveros hubs locais espalhados em no Reino Unido, Alemanha, Canadá, Emirados Árabes. E mesmo com essa campanha que tem sido feita, nossos clientes continuam nos suportando, em busca da melhor tecnologia e de maior escala. Nossos maiores mercados continuam preservados. A racionalidade parece que está acontecendo na maior parte deles”, disse Motta.

Poderá a racionalidade (alguma versão dela) triunfar também no Brasil? É sempre uma aposta arriscada.

Veja também

FIM
Ceitec rumo à liquidação

Parte da estatal pode seguir como uma OS focada em design de chips.

BLOQUEIO
Bolsonaro: porta fechada para a Huawei?

Ala anti-chinesa do governo está ganhando força e limitações podem ser impostas no 5G.

VIRADA
Ministério da Economia prepara compra de nuvem

É a segunda grande licitação de nuvem a partir do governo federal. AWS ganhou a primeira.

POSICIONAMENTO
Vivo vira broker de nuvem

Plataforma começa com Microsoft, Huawei Cloud e AWS e logo terá Google também.

ADEUS CHINA
Trump quer mais fábricas de semicondutores

Governo está negociando novas instalações da Intel e da TSMC nos Estados Unidos.

RESPOSTA
China vai banir PCs e softwares estrangeiros

Todos os órgãos públicos deverão cumprir a determinação até 2022.

BANDEIRA
TRT do PR: falha foi causada por storage Huawei

Sistema da justiça trabalhista paranaense ficou uma semana fora do ar.

SOLUÇÕES
Oi quer ser um player de TI para valer

Operadora quer dobrar participação de serviços de TI na receita até 2024.

SILÍCIO
Apple deixa de usar chips da Intel

Marca é utilizada há 15 anos no Mac e agora a empresa vai produzir seus próprios processadores.

BRASÍLIA
Feder, da Multilaser, no Ministério da Educação?

Empresário tem um perfil técnico, mas que ao mesmo tempo agrada ao Centrão.

E-COMMERCE
Santa Catarina acena para Mercado Livre

Tudo parece pronto para centro de distribuição deixar o Rio Grande do Sul rumo a Santa Catarina.

DEU PRA TI
Mercado Livre desiste do Rio Grande do Sul

Rolo tributário gaúcho levou gigante de e-commerce a desistir de abrir CD em Gravataí.

DADOS
Funcionários públicos recebem auxílio emergencial

Tribunais de Contas dos estados do Espírito Santo, Santa Catarina, Ceará e Goiás descobriram fraudes.