INVESTIMENTOS

CVCs corporativos não dão dinheiro

Desde 2023, mais de 70% dos fundos apresentaram retornos negativos.

04 de março de 2026 - 13:26
Foto: Depositphotos

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A grande maioria dos fundos de corporate venture capital (CVC) não dão dinheiro.

Segundo um estudo divulgado pela Spectra Investimentos, mais de 70% dos fundos apresentaram retornos negativos.

Os chamados CVCs foram uma febre entre 2021 e 2022, quando foram criados 40 fundos em dois anos.

Já em 2023, apenas cinco novos veículos foram criados. Em 2024, o ritmo diminuiu ainda mais, com somente dois lançamentos.

O levantamento, contudo, considerou apenas 32 fundos com base em informações disponíveis na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). 

A análise indica que a taxa interna de retorno (TIR) média desses veículos é de -10%, enquanto a mediana está em -12%.

De acordo com a Spectra, 72% dos programas registram TIR negativa. Entre os poucos que obtiveram desempenho positivo, somente 10% alcançaram retornos entre 25% e 50%.

O estudo também observa que 30% da amostra reúne fundos com menos de três anos de operação, o que pode indicar impacto inicial da chamada curva J,  fenômeno em que os resultados tendem a ser negativos nos primeiros anos. 

De qualquer modo, esse fator isoladamente não justifica o desempenho geral abaixo do esperado.

O relatório ressalta também que as iniciativas de CVC tendem a ter finalidade de estratégia de inovação e fortalecimento de core business das companhias investidoras, e não necessariamente de objetivos financeiros.

Apesar disso, 34% dos aportes foram direcionados a startups que atuam em setores sem relação direta com a atividade principal das patrocinadoras.

Foram identificadas 23 startups que, após receberem investimento de um CVC, acabaram adquiridas pela própria corporação investidora, sinalizando um movimento de internalização de tecnologias e competências. 

Também foram registrados 14 casos de write-off e 31 saídas por venda para outras empresas. No total, 34% das saídas tiveram como destino as patrocinadoras dos fundos, o que representa 4% do volume total investido.

O levantamento também observou 173 aportes individuais realizados por CVCs, com base nas demonstrações financeiras divulgadas à CVM. 

Os investimentos independentes apresentaram a menor fatia de retornos negativos, em que 25% dos casos tiveram TIR abaixo de zero. 

Por outro lado, apenas 10% dessas startups alcançaram TIR superior a 25%, o menor percentual entre os grupos avaliados.

Conforme a Spectra, esse padrão sugere que operações feitas sem a participação de outros fundos tendem a ter perfil de risco e retorno distinto, com menor assimetria e foco mais estratégico do que financeiro.

Já nos co-investimentos, 6% dos aportes superaram 50% de retorno, enquanto entre 11% e 12% ficaram na faixa de 25% a 50%. Aproximadamente um terço dos investimentos dessas duas categorias registrou TIR negativa.

A principal diferença entre esses grupos aparece nos write-offs: nos co-investimentos com VCs mais recentes, 5% das operações resultaram em perda total, enquanto não houve registros de perdas integrais entre os fundos tradicionais na amostra analisada.

Ao observar o múltiplo sobre o capital investido (MOIC), as diferenças se mantêm. Nos co-investimentos com VCs mais novos, 3% dos negócios alcançaram múltiplos superiores a dez vezes, e outros 3% ficaram entre cinco e dez vezes. Entre os fundos tradicionais, 11% dos aportes registraram múltiplos entre cinco e dez vezes.

Nos investimentos realizados de forma independente, apenas 4% superaram múltiplos de 2,5 vezes, reforçando a avaliação de que esse tipo de estratégia tende a priorizar ganhos estratégicos para a companhia investidora, em vez da maximização do retorno financeiro.