Marcelo Oliveira.
O fenômeno cultural que orbita a Inteligência Artificial e a ascensão das canetas emagrecedoras revela muito menos sobre os avanços da tecnologia ou da medicina e muito mais sobre o estágio psicológico, social e organizacional da sociedade contemporânea, que se mostra cada vez mais exausta, impaciente e obcecada por resultados imediatos, ainda que tais conquistas careçam de sustentabilidade ou de bases estruturais sólidas.
Embora estejamos analisando universos aparentemente distintos, um digital e outro biológico, ambos respondem ao mesmo impulso coletivo de busca por atalhos que prometem performance sem a necessidade de transformação interna, ganho sem o esforço proporcional e evolução sem o desconforto inerente ao processo, operando sob a premissa ilusória de que seria possível pensar com maior clareza sem o exercício do aprendizado, produzir em escala sem a estruturação prévia de métodos, emagrecer sem a alteração de hábitos ou crescer sem a revisão rigorosa de fundamentos básicos.
O problema central nunca residiu na ferramenta propriamente dita, seja ela um modelo generativo de última geração ou um medicamento metabólico avançado, mas sim na expectativa quase infantil de que tais recursos possuam a capacidade de substituir a disciplina, o método, a responsabilidade e o tempo, elementos que permanecem inegociáveis quando o objetivo final é uma construção real e duradoura.
No ambiente corporativo, o discurso do AI First propagou-se com uma velocidade impressionante, porém a prática revela organizações que empilham projetos piloto e assinam plataformas de inovação enquanto continuam operando com dados fragmentados, processos frágeis e uma ausência crônica de governança, o que acaba gerando ganhos pontuais e uma sensação passageira de modernidade que não se traduz em transformação sistêmica ou em vantagem competitiva sustentável no longo prazo.
Na esfera da saúde, o paralelo se manifesta de forma direta e desconfortável, visto que as canetas emagrecedoras efetivamente entregam os resultados prometidos e seria intelectualmente desonesto negar sua eficácia, entretanto, quando tais resultados não são acompanhados por uma reeducação alimentar profunda e pela mudança consciente de rotinas, o que se estabelece não é um estado de saúde plena, mas sim uma dependência biológica, já que o efeito se sustenta apenas enquanto a substância está presente no organismo e colapsa no exato momento em que ela desaparece, evidenciando que a desordem estrutural original jamais foi tratada.
Em ambos os cenários, o mercado logrou êxito em vender soluções superficiais para problemas que são estruturais, embalando promessas onde seria exigido método e priorizando o marketing onde deveria haver engenharia, fisiologia e limites claros, apostando que a velocidade poderia compensar a ausência de base, uma estratégia que historicamente nunca funcionou, mas que costuma ser convenientemente ignorada durante ciclos de euforia coletiva.
O ano de 2025 começa a sinalizar o encerramento desse encantamento acrítico, não em função de uma falha da Inteligência Artificial ou da irrelevância dos avanços médicos, mas porque a realidade organizacional e a biologia humana começam a cobrar a conta da superficialidade, deixando claro que a acuracidade não emana da escala isolada, que a inteligência não emerge de modelos desprovidos de contexto e que a saúde não pode ser terceirizada sem custos colaterais significativos.
Surge então um novo risco sistêmico, frequentemente negligenciado durante o auge do entusiasmo, que se caracteriza pela dependência tecnológica e biológica, manifestando-se quando empresas perdem a capacidade de operar sem fluxos opacos de terceiros ou quando indivíduos passam a depender de soluções externas para compensar uma vida desorganizada, revelando que o entrave nunca foi o uso do recurso, mas sim a incapacidade de funcionar sem o suporte constante da ferramenta.
Curiosamente, o caminho para a maturidade não aponta para um futurismo ainda mais agressivo, mas sim para o resgate de fundamentos antigos e comprovados, pois as organizações que realmente avançam em 2025 são aquelas que tratam a Inteligência Artificial como uma infraestrutura crítica, dotada de arquitetura clara, dados confiáveis e pessoas capacitadas no loop de decisão, compreendendo que a tecnologia tem o poder de amplificar a competência existente, mas é incapaz de criar competência onde ela não foi previamente construída.
Da mesma forma, os indivíduos que de fato evoluem utilizam os recursos modernos como apoio e nunca como substituição, mantendo o sono, a alimentação, o movimento e a constância como pilares inegociáveis de sua existência, redescobrindo que o básico bem feito continua sendo o maior diferencial competitivo em qualquer era, inclusive na mais tecnológica de todas.
No fundo, o boom da IA e das canetas ermagrecedoras nos entrega uma lição incômoda e necessária ao evidenciar que não existe inovação capaz de nos poupar do que é estrutural na gestão, no corpo ou na vida, porque ferramentas não possuem a propriedade de substituir o caráter organizacional, a tecnologia não corrige a ausência de método e a química não resolve a desordem profunda de hábitos.
A Inteligência Artificial não deve ser confundida com inteligência emprestada e medicamentos metabólicos não representam uma virtude incorporada, pois ambos são alavancas poderosas que amplificam exatamente aquilo que já existe, separando com nitidez absoluta quem buscava apenas atalhos de quem estava disposto a construir com solidez, estabelecendo uma linha divisória antiga e silenciosa entre o modismo passageiro e a maturidade real.
*Marcelo Oliveira é conselheiro e consultor de empresas.