Funcionários do Ceitec assumiram a defesa da estatal.

Fechar o Ceitec, estatal de chips federal sediada em Porto Alegre, pode custar R$ 300 milhões, um valor que torna mais viável para o governo manter a empresa aberta até ela entrar no azul do que fechar as portas.

Pelo menos, é o argumento da Associação dos Colaboradores do Ceitec, que reúne 80% dos 180 empregados da estatal e terá uma reunião com o secretário especial de desestatização, José Salim Mattar na semana que vem.

Segundo revela o site Convergência Digital, os funcionários estão tentando virar o jogo já nos descontos do segundo tempo. 

O Conselho do Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) do governo federal recomendou que a fabricante estatal de chips Ceitec seja dissolvida, uma decisão que está agora com o presidente Jair Bolsonaro.

O engenheiro Júlio Leão, porta voz da associação dos colaboradores do Ceitec, citou o custo de R$ 300 milhões para descomissionar os equipamentos ao Convergência, sem apontar a origem da estimativa.

“Não estamos falando de simplesmente tirar da tomada. É um parque com químicos, com gases tóxicos. Precisa fazer uma licitação internacional para selecionar uma estrangeira, licenciada para isso, vir desconectar”, disse Leão.

A estimativa do próprio PPI é que a Ceitec precisaria de aportes anuais até 2028, no cenário mais pessimista. 

O governo já colocou R$ 800 milhões na Ceitec em duas décadas, sendo a cifra nos últimos anos na casa dos R$ 50 milhões.

Pelas contas dos funcionários, a empresa poderia entrar no azul em 2024 com a adoção de medidas que permitiriam cortar os custos operacionais entre 10% a 15% e a folha em 14%.

Além disso, a Ceitec teria contratos encaminhados com a Pirelli, além de potenciais negócios na área de saúde e setor agrícola.

“Se esperar, o governo vende parte da participação com lucro e ainda garante ganhos futuros”, completa Leão. 

Pelo que parece, os funcionários da Ceitec decidiram tomar a defesa da estatal nas próprias mãos. 

Para dar certo, a movimentação depende de convencer Mattar no sentido de que ele convença o presidente Bolsonaro de não aceitar a recomendação do PPI.

As chances de que isso aconteça parecem escassas. No dia em que a liquidação do Ceitec foi anunciada, Salim Mattar foi ao Twitter comemorar:

“A Ceitec, aquela empresa do chip para a orelha do boi, é a primeira estatal a ser liqüidada. Isso significa menos uma estatal que só onerava o cidadão pagador de impostos”, twittou Mattar.

Não foi um fato isolado. O Ceitec foi apontado por Mattar como um alvo para privatização e fechamento desde o começo do governo.

O secretário especial de Desestatização pertence à ala liberal em economia da administração Bolsonaro e parece difícil que ele vá abdicar de uma vitória em reduzir o tamanho do governo.

A parte do governo que seria favorável aos argumentos parece ter desistido de tentar manter a Ceitec nos moldes atuais.

O secretário executivo do Ministério de Ciência e Tecnologia, Julio Semeghini, disse depois da decisão do PPI que seria feita uma “tentativa” de qualificar uma parte do Ceitec como uma organização social, figura jurídica conhecida pela sigla OS.

A parte do Ceitec que seguiria nessa nova encarnação seria a de design de chips, com as patentes geradas nos últimos anos e parte da equipe. 

De acordo com Semeghini, poderia haver ainda um acordo com algum eventual interessado em absorver a parte de produção, o que parece pouco provável, uma vez que fabricação de chips é um negócio intensivo em capital e uma atualização da Ceitec pode custar milhões de reais.

Não é a primeira vez que uma estratégia de corte de gastos e elevação de receita, com vistas à uma eventual privatização é apontada como uma saída para o Ceitec.

Ainda em 2009, o então presidente do Ceitec, Eduard Weichselbaumer, disse publicamente que a empresa só seria bem sucedida se fosse privatizada.

A tentativa de mudança de curso de Weichselbaumer, um executivo profissional que hoje trabalha no setor de eletroeletrônica nos Estados Unidos, não emplacou. 

O profissional saiu em 2010 em em meio a críticas à burocracia do Ministério de Ciência e Tecnologia. 

Em 2013, foi discutida publicamente a possibilidade de venda de parte de empresa, deixando o governo como sócio de uma PPP gerida pela iniciativa privada. 

Durante a administração Michel Temer a Ceitec ficou num limbo, voltando aos debates como um alvo para a pauta desestatizante da ala liberal do governo Bolsonaro.

Agora, como já acontecia antes, parece pouco provável que as vozes de dentro da empresa com um plano de negócios para o Ceitec sejam ouvidas.