Gabriel Henrique, CPO e co-founder da Poli (Foto: Divulgação)
Quando pisei na China, não encontrei um país tentando “alcançar” o Ocidente em inteligência artificial; encontrei um ecossistema que já decidiu não depender dele.
Estamos falando de um país que já contribuiu com mais de 1.500 grandes modelos de linguagem (LLMs) lançados globalmente, superando qualquer outro país e demonstrando a escala do seu desenvolvimento local de inteligência artificial, representando uma parte significativa do total de cerca de 3.755 modelos públicos no mundo.
O país concentra mais de 5.000 empresas dedicadas exclusivamente à inteligência artificial e, para sustentar esse ecossistema, projeta alcançar uma capacidade computacional superior a 1.460 EFLOPS (unidade que mede a capacidade de processamento) em 2026, impulsionando desde grandes centros de dados até aplicações industriais de alta complexidade. A China construiu algo que poucas nações no mundo têm: a autossuficiência tecnológica real.
Essa constatação muda tudo, especialmente para quem, como eu, vive de tecnologia, dados, automação e comunicação entre empresas e clientes.
Participei da última Missão China realizada pelo Programa Madurar Internacional, uma iniciativa do Hub Goiás (CEEI) em parceria com a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação de Goiás (SECTI-GO), para inserir startups brasileiras já maduras, em tração ou scale-up, dentro de um dos ecossistemas de inovação mais sofisticados e agressivos do planeta.
Tive a oportunidade de apresentar a Poli Digital no HICOOL, um dos maiores eventos de inovação da Ásia. O ambiente não se parece com feiras de tecnologia no Ocidente. Lá, não se fala de “provas de conceito”. Fala-se de aplicações em produção e velocidade de crescimento.
Enquanto no Brasil ainda discutimos se a IA vai substituir pessoas, na China ela já substituiu processos inteiros e abriu espaço para novos modelos de negócios.
E o que encontrei foi um mercado onde a mensageria deixou de ser apenas comunicação para se tornar infraestrutura econômica, conectando vendas, pagamentos, atendimento e dados em um único fluxo.
Nesse ambiente, a informação é tratada como ativo estratégico, alimentando modelos que aprendem e se ajustam em tempo real, enquanto empresas e plataformas operam em ciclos de inovação medidos em semanas, não em anos, criando uma velocidade competitiva.
Talvez o maior choque cultural tenha sido entender que, por lá, inteligência artificial não é vista como uma “ferramenta”. É vista como infraestrutura, como energia elétrica, como telecomunicações. As empresas não perguntam: “Isso usa IA?”, elas perguntam: “Isso escala? Isso reduz custo? Isso aumenta conversão?”
Foi exatamente esse tipo de conversa que tivemos ao apresentar a Poli Digital. A nossa plataforma, que automatiza interações, entende contexto, aprende com dados e melhora a performance comercial das empresas, não foi vista como “inovação”. Foi vista como uma engrenagem essencial de um modelo de negócios moderno.
Sim, a China é gigantesca em infraestrutura, chips, data centers, superapps e modelos de linguagem. Mas o que realmente a diferencia é o modo de pensar.
Existe ali uma lógica de longo prazo, sustentada por uma execução disciplinada que transforma estratégia em resultado concreto, combinada a uma colaboração quase orgânica entre governo, startups e grandes empresas, todos alinhados a um mesmo projeto de desenvolvimento. Tudo isso é atravessado por uma obsessão cultural por eficiência, onde tempo, recursos e dados são tratados como ativos preciosos, e cada decisão é pensada para maximizar impacto, escala e competitividade global.
Essa imersão na cultura chinesa me fez repensar muitas certezas sobre inovação, crescimento e competitividade global. A sensação não é de ameaça; vejo como um chamado à realidade.
Estar na China, apresentar nossa solução em um palco asiático e ver o interesse genuíno do mercado reforça que estamos construindo algo global desde o Brasil para ajudar empresas a usar tecnologia, dados, mensageria e IA para criar relacionamentos mais eficientes, escaláveis e inteligentes entre marcas e pessoas. E isso é, talvez, o maior aprendizado dessa jornada.
*Por Gabriel Henrique, CPO e co-founder da Poli.