Ministro Marcos Pontes recebeu o CEO da Pirelli, Roberto Falkenstein. Foto: MCT.

O Ceitec, estatal de chips do governo federal sediada em Porto Alegre e alvo da agenda desestatizante de parte da administração Bolsonaro, partiu para o ataque, em uma movimentação pública para mostrar a sua pertinência.

Na sexta-feira, 05, representantes do Ceitec e da Pirelli estiveram em uma reunião com o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, apresentando um projeto de uso de chips da estatal para funcionalidades de Internet das Coisas em pneus.

Rastreio, identificação, conectividade e geração de dados para acompanhamento de desempenho do produto estão entre algumas das funcionalidades da solução conjunta, que já se tornou uma patente registrada.

A meta é iniciar a oferta dessas soluções ao mercado ainda em 2019 para determinados modelos de pneus.

A nota publicada sobre o assunto no site do Ministério da Ciência e Tecnologia, no entanto, não traz nenhuma informação mais prática que permita especular o tamanho do projeto, como volume ou complexidade dos chips a serem entregues, ou o modelo de negócio da iniciativa.

A reunião no MCT acontece pouco menos de uma semana depois do secretário especial de Desestatização e Desinvestimento do Ministério da Economia, Salim Mattar, dizer em entrevista para a revista Veja que Júlio Semeghini, secretário executivo do Ministério de Ciência e Tecnologia, “não quer privatizar nenhuma das estatais da pasta”.

A entrevista foi sobre as dificuldades em emplacar a agenda privatizante de Mattar e do ministro da Economia, Paulo Guedes. Semeghini e o MCT foram os únicos opositores citados nominalmente.

Mattar também falou indiretamente do Ceitec: “Existem casos como o de uma estatal que deveria produzir um chip para monitorar os rebanhos. O tal chip, que é instalado na orelha do boi, nem é produzido no Brasil”. 

Quando do anúncio da reunião do Ceitec para lançar o acordo com a Pirelli, sites especializados como o Tele Síntese tiraram a conclusão óbvia que se tratava de uma ação de relações públicas da estatal usando o ministério (o que, aliás, é legítimo e parte do jogo).

O Ministério da Ciência e Tecnologia reagiu, disparando uma nota dizendo que a reunião já estava marcada há um mês e que o desenvolvimento do projeto já vinha de um ano. Por tanto, tenta convencer o MCT, a reunião não tem nada que ver com a entrevista de Mattar para a Veja (desconversar também é legítimo e parte do jogo). 

Na divulgação do site do MCT, o texto realça que o tempo de trabalho conjunto do Ceitec com a Pirelli já aumentou para dois anos.

A verdade é que tanto faz a quanto tempo o trabalho vem sendo feito ou desde quando a reunião estava marcada. Quem o ministro recebe e com quem ele decide tirar fotos são decisões políticas que servem para expor posicionamentos (o que, de novo, é legítimo).

No site do Ceitec, por exemplo, está em destaque notícia divulgada no dia 10 de janeiro, quando o ministro Pontes visitou a estatal e fez uma foto com a diretoria. 

Essa visita aconteceu pouco menos de uma semana depois do Ceitec foi dado como um caso terminal pelo Estadão, que afirmou que a empresa deveria ter as portas fechadas até março, quando todos os funcionários serão demitidos e os ativos vendidos.

Ainda segundo o Estadão, a chamada liquidação deveria ser aprovada pelo conselho do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), colegiado formado por ministérios e bancos públicos, além da Presidência da República, em uma reunião em fevereiro.

Fevereiro e março vieram e passaram e não há notícias que o Ceitec tenha encerrado suas atividades. Talvez a reunião não tenha acontecido, talvez tenha acontecido e o nome do Ceitec não foi apresentado. 

Talvez a exposição inicial do Ceitec tenha sido um movimento estratégico por parte da ala privatista do governo, para conseguir começar a política de fechamento e privatização de estatais em algum lugar, de preferência onde as resistências fossem baixas.

O Ceitec tem exatamente esse perfil: parte da política industrial dos governos petistas para a área de semicondutores, a empresa existe por meio de subsídios de Brasília, que totalizam desde 2008 a cifra R$ 1,08 bilhão, dos quais R$ 400 milhões foram na construção e outros R$ 680 milhões em outros investimentos e custeio.

As movimentações de Semeghini e a dificuldade do governo de articular uma política consistente podem garantir a continuidade das operações do Ceitec no curto e médio prazo, mas a verdade é que mudanças são necessárias se a empresa quer ter um futuro a longo prazo.

O Ceitec está mais ou menos à deriva desde o impeachment da presidente Dilma e a crise econômica, quando sumiram o incentivo político e o dinheiro para a ideia de transformar o Brasil em um polo de desenvolvimento de semicondutores (Eike Batista chegou a anunciar planos bilionários na área).

Mesmo durante as administrações petistas, que federalizaram a estatal em 2008, colocando-a sob a alçada do Ministério de Ciência e Tecnologia, já havia discussões mais ou menos abertas sobre o propósito de seguir investindo.

Em 2013, foi discutida publicamente a possibilidade de venda de parte de empresa, deixando o governo como sócio de uma PPP gerida pela iniciativa privada.

Ainda em 2009, o então presidente do Ceitec, Eduard Weichselbaumer, disse publicamente que a empresa só seria bem sucedida se fosse privatizada.

Weichselbaumer, um executivo alemão que foi o único profissional vindo da iniciativa privada para comandar o Ceitec, acabou saindo da empresa em 2010, em meio a choques com o Ministério de Ciência e Tecnologia.