Parecia bonito na foto, mas pegou mal.

A Stefanini decidiu “repensar” o Stefanini@Home, uma oferta combinada de tecnologia e mobiliário para home office cuja característica mais chamativa era uma cabine com isolamento para quem está trabalhando em casa.

O móvel, com 1,6 metro de profundidade, 1 metro de largura e 2,2 metros de altura (mais ou menos o dobro de um assento de classe econômica), despertou uma tempestade de críticas, uma parte delas na própria caixa de comentários do Baguete.

“Ouvimos a repercussão e percebemos que a nossa comunicação do produto não foi a melhor. Decidimos repensar tudo”, afirma Rodrigo Pádua, VP Global de Gente e Cultura da Stefanini.

Em conversa com o Baguete, Pádua destacou o componente tecnológico do Stefanini@Home, que empacota numa só solução VPN, acesso remoto, cibersegurança e um processo de contratação digital, um pacote interessante para empresas montando operações de home office.

"A cabine era uma parte acessória na oferta, podendo ser adotada ou não, e realmente não faz parte do negócio chave da Stefanini", destaca Pádua.

No entanto, a cabine figurou com destaque na comunicação da empresa sobre a oferta, talvez por colocar de uma maneira tangível a proposta e,  sem dúvidas, sem que a Stefanini esperasse a reação contrária gerada em redes sociais.

“Era um MVP”, afirma Pádua, usando a sigla em inglês para “produto mínimo viável”, uma das favoritas no jargão das startups. “É o modelo digital. Lançamos o produto, estamos atentos para ouvir e aprender”, aponta o executivo.

A conversa com o Baguete é a primeira manifestação pública da Stefanini sobre o produto polêmico. Até agora, a empresa estava lidando de maneira mais discreta com o assunto, tirando o produto do site e apagando os posts em redes sociais relacionados.

Na prática, parece difícil de pensar que a reconsideração da Stefanini leve a empresa a decidir vender novamente o produto. 

Pádua preferiu não elaborar muito sobre o assunto, provavelmente para não gerar novas polêmicas, mas a verdade é que o produto da Stefanini fazia uma certa dose de sentido em um nicho e a reação veio em grande parte de fora dele.

A ideia era que a cabine fosse usada para serviços de atendimento ao cliente, suporte técnico, backoffice, vendas e cobrança, todas atividades típicas em contratos de terceirização de processos de negócios (BPO, na sigla em inglês).

De acordo com a divulgação da Stefanini na época, com direito a citações entusiasmadas do fundador, Marco Stefanini, os benefícios seriam “privacidade instantânea, eliminação de ruídos, além de um ambiente de trabalho funcional e ergonômico”.

Em termos de espaço e conforto, não difere muito da área disponível para um funcionário em um contact center típico, com a diferença que uma posição de atendimento costuma ser aberta.

Para completar, é provável que a maioria dos funcionários de contact center trabalhando em casa desde o começo da pandemia o esteja fazendo de maneira improvisada, para a qual a cabine seria uma melhoria.

As funcionalidades de controle biométrico de entrada e horas trabalhadas, que aterrorizam mestrandos de comunicação ouvidos pelo site Manual do Usuário pelos seus ecos na obra do pensador francês Michel Foucault, são o cotidiano de trabalho desses profissionais.

O problema da oferta da Stefanini pode não ter sido a aplicação prática no segmento de BPO (menos de 50 cabinas foram instaladas), mas ter vindo em um momento de inseguranças e insatisfação reprimida geradas pela migração para o home office para outro tipo de profissionais, para quem as expectativas de condições de trabalho em casa são outras.

Nem tudo são maravilhas no chamado “novo normal”, e muitos profissionais relatam estar trabalhando mais horas, enviando mais mensagens e passando mais tempo em reuniões, em uma lógica de trabalho 24x7, sem a separação clara entre trabalho e vida pessoal facilitada por ir trabalhar em um escritório e depois ir para casa.

No meio disso tudo, o Stefanini@Home parece ter se tornado um símbolo sobre o qual muitos profissionais projetaram as suas insatisfações com o home office no presente e seus temores sobre sua situação no futuro.

"Muito sem noção, fora que esta coisa de home office está excedendo limites, de hora, de invasão de privacidade, fora o que as empresas não estão ganhando com suas economias e no nosso bolso NADA!",  aponta um comentário típico no Baguete. "Du caramba! Acabou a vagabundagem em casa! Home office de fato vai virar trabalho sério! Dá login ao entrar e logout ao sair! Fantástico", ironizou outro leitor.

Os temores têm uma dose de realidade. Em junho, o presidente do Santander, Sergio Rial, causou ultraje ao falar em "abdicação voluntária" de benefícios ou de uma porcentagem do salário por parte dos funcionários em meio a uma transmissão ao vivo do próprio banco.

O agito em torno do Stefanini@Home veio sem dúvida em má hora para a Stefanini, que está em meio ao que é uma das viradas para o home office mais ambiciosas já feitas numa empresa de TI brasileira.

O projeto, batizado de Stefanini Everywhere, tem por meta que metade do time trabalhe em home office num prazo de 12 a 18 meses, sendo 60% dessa equipe de maneira permanente e outros 40% de maneira parcial.

É uma mudança enorme para uma empresa que tem 25 mil funcionários (14 mil no Brasil) e tinha antes da crise uma prática mínima de home office, limitada a 120 profissionais na Europa.

A migração para o home office se dará tanto por novas contratações de profissionais no “interior do país”, num ritmo entre 150 e 200 por mês em 2020, com uma subida ainda maior em 2021, quando aquisições devem elevar a velocidade para 500 por mês. 

Caso a Stefanini consiga contratar na velocidade máxima e feche as aquisições previstas, estamos falando de quase 7 mil novos funcionários em home office, a imensa maioria dos quais não se sentiria nada atraído pelo prospecto de trabalhar em uma cabine.