Sede da Ceitec em Porto Alegre. Foto: Divulgação.

Tamanho da fonte: -A+A

Julio Leão, funcionário do Ceitec que vinha liderando a mobilização para tentar evitar o fechamento da estatal federal de chips, foi demitido nesta segunda-feira, 19.

O ato foi publicado no Diário Oficial da União nesta segunda-feira, 19.

Leão foi o primeiro demitido no Ceitec depois da nomeação do capitão de fragata reformado Abilio Andrade Neto como liquidante da estatal pelo governo federal.

“Como sou servidor concursado e não existe um processo administrativo para minha exoneração, assim como sequer o plano de liquidação foi aprovado, parece retaliação”, disse Leão ao site Convergência Digital

Leão é o porta-voz da Associação dos Colaboradores do Ceitec (Acceitec), o último pólo ativo da resistência contra o fechamento da empresa.

O profissional foi contratado pela Ceitec em 2013 e era responsável pela área de patentes da empresa, em tese uma posição chave para viabilizar a transferência de tecnologia do Ceitec para uma organização social, o que estava nos planos de Brasília.

Leão é representativo do quadro do Ceitec como um todo, tendo doutorado e pós-doutorado no exterior, experiência acadêmica como professor e uma passagem de três anos por uma empresa americana do setor de eletroeletrônica.

À frente da Acceitec, que reúne 80% dos 180 empregados da estatal, Leão havia se tornado a principal voz em defesa da continuidade da operação, organizando eventos e falando sobre o assunto com a imprensa.

Procurada pelo Convergência Digital, o Ceitec e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações não comentaram o assunto.

Em 2019, quando ainda não estava claro o futuro do Ceitec, a direção da estatal e o MCT ainda tentaram algumas movimentações no sentido de criar uma agenda positiva, organizando por exemplo a visita do ministro Marcos Pontes à sede da estatal, ou uma reunião de última hora com a Pirelli.

Em outubro de 2020 o Ceitec sofreu dois baques que parecem ter selado o destino da estatal.

O primeiro foi a saída de Julio Semeghini do cargo de secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Semeghini esteve no lado oposto na briga com a ala privatista do governo, liderada pelo secretário especial de Desestatização, Salim Mattar, que buscava liquidar o Ceitec.

Dias depois, surgiu a notícia de que o Ceitec estava sendo investigado pela Polícia Federal por fraude e pagamento de propinas na contratação de uma empresa de tecnologia.

O decreto presidencial com a extinção veio no dia 16 de dezembro, prevendo a seleção de  uma entidade privada sem fins lucrativos como organização social para absorver as atividades de pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e inovação no setor de microeletrônica.

Andrade Neto foi nomeado para fazer a liquidação do Ceitec em fevereiro de 2021, logo depois do  governo conseguir derrubar uma liminar da Justiça Federal do Rio de Grande do Sul que havia travado o processo.

O militar foi o responsável por conduzir a extinção da Companhia de Armazéns e Silos do Estado de Minas Gerais (Casemg). 

O liquidante da Ceitec agilizou as coisas em Minas Gerais. A liquidação da Casemg havia sido autorizada em outubro de 2018. Andrade Neto foi indicado para substituir o liquidante em novembro de 2019 e a empresa foi fechada um ano depois, em novembro de 2020.

Criada em 1957 pelo governo mineiro e federalizada em 2000, a Casemg é uma empresa muito mais simples do que o Ceitec.

Entre 2017 e 2020, considerando as despesas administrativas e os custos de operação, a média anual de gastos da Casemg foi de R$ 19 milhões. O custo de liquidação da companhia foi de R$ 35,2 milhões.

No Ceitec, os valores são outros. Entre 2010 e 2018, o Tesouro Nacional precisou repassar cerca de R$ 600 milhões à empresa a fim de cobrir os seus custos, período no qual o prejuízo chegou a R$ 160 milhões.

Os custos de fechar o Ceitec também prometem ser bem maiores. Pelas contas da Associação dos Colaboradores do Ceitec, a empreitada pode custar R$ 300 milhões.