Mercado Livre estaria de partida para Santa Catarina.

Santa Catarina já concedeu um “regime especial” para o Mercado Livre, se colocando em boa posição para receber o centro de distribuição que a gigante de e-commerce desistiu de instalar em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre.

Assim, o estado estaria em condições de entregar as condições tributárias não recebidas pela empresa no Rio Grande do Sul, o que levou a companhia a desistir do investimento anunciado em novembro de 2019.

Pelo menos, é o que parece garantir o secretário da Fazenda de Santa Catarina, Paulo Eli, fonte da informação publicada pelo jornal catarinense NSC.

Eli, por outro lado, não deu nenhum outro detalhe adicional sobre o centro de distribuição, como a sua localização, e o Mercado Livre não confirmou oficialmente que seu novo destino é Santa Catarina.

A posição oficial da empresa, divulgada na sexta-feira, 19, fala apenas da desistência do Rio Grande do Sul e do início de negociações com "outras localidades na região, onde identificamos um modelo de atuação mais favorável aos empreendedores que atuam em nosso marketplace".

"Infelizmente, as negociações com o governo gaúcho para desburocratizar a atuação de vendedores de fora do Rio Grande do Sul dentro do Estado resultaram infrutíferas até o momento", alegou a companhia.

A desistência do Mercado Livre aconteceu apesar do fato da empresa já estar em processo de contratação de 500 funcionários em um primeiro momento e ter um alvará da prefeitura de Gravataí para um centro de distribuição de 50 mil metros quadrados.

A nota do Mercado Livre não chega a dizer com todas as letras que não há chances de seguir com as negociações, mas essa é a mensagem que veio em privado da empresa.

O prefeito de Gravataí, Marco Alba, divulgou em nota que foi informado por um executivo do Mercado Livre que a empresa perdera o investimento "definitivamente, em virtude da falta de apoio do governo do estado". 

O governo gaúcho, por outro lado, afirma que não recebeu uma comunicação oficial da empresa sobre a desistência, e sinaliza estar disposto a seguir negociando. 

“Essa negociação ainda não terminou. Tudo o que a empresa nos demandou até aqui foi atendido. Infelizmente, muitas pessoas estão se precipitando e fazendo uso político dessa situação, o que não ajuda em nada o estado. Nós estamos trabalhando para atender as reivindicações da empresa, mas sem deixar de lado também o impacto que o atendimento a esses pedidos podem ter na economia do nosso estado”, disse o governador Eduardo Leite (PSDB) em vídeo divulgado nas redes sociais.

O uso do gerúndio estamos trabalhando a essas alturas do campeonato parece ser pouco promissor para as aspirações gaúchas de manter o investimento. Isso porque não é a primeira vez que o Mercado Livre faz um movimento público sobre o tema.

Em março, o Mercado Livre anunciou a suspensão de contratações e obras em Gravataí, alegando dificuldades tributárias. O problema seria que pelas regras tributárias gaúchas, cada vendedor que comercializa produtos pela plataforma teria de abrir uma filial no Rio Grande do Sul.

A questão tributária é complexa, uma vez que dentro do Mercado Livre a transação é feita entre o vendedor e o comprador, mas os produtos vendidos já estão previamente armazenados dentro do centro de distribuição.

Em uma matéria do Jornal do Comércio feita depois do anúncio da suspensão, a Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul, dissecou a problemática tributária em detalhes. Já época, a secretaria se disse surpreendida pela decisão do Mercado Livre.

Então, se o Mercado Livre o movimento do Mercado Livre para colocar uma pressão pública no governo gaúcho já aconteceu há três meses, e parece difícil de acreditar que a companhia esteja blefando agora.

Claro que para o governo estadual gaúcho interessa manter vivo um canal de negociação na esperança de reverter a decisão. 

Parte da resposta da secretaria da Fazenda, no entanto, é levar a disputa para o Confaz,  "está levando" o assunto no âmbito do Confaz para que seja discutido um padrão nacional para o tipo de operação do Mercado Livre, conhecida no jargão como "fulfillment", o que dificilmente se parece com uma cartada vencedora de última hora.

A perda do investimento do Mercado Livre, que tinha uma perspectiva de gerar 2 mil em Gravataí em meio a uma crise econômica, levou o governo Eduardo Leite para o centro de uma onda de críticas.

"Quatro meses depois do primeiro impasse, ainda estão levando o assunto adiante? É claro que não, é cristalino que o assunto repousava em algum escaninho, em quarentena", avalia Alba, em nota divulgada em redes sociais, fazendo menção ao tema Confaz.

Alba reservou críticas duras para o pronunciamento de Leite: "Ou seja, não esclarece nada, não anuncia nada, não decide nada, apenas joga com as palavras tentando diluir esta decisão CATASTRÓFICA para o Estado com o lero lero de sempre".

Por fim, Alba faz a comparação temida por qualquer governador gaúcho: “É pior do que mandar a FORD embora, pois naquela oportunidade já tínhamos a GM instalada e, apesar do DESASTRE para a economia gaúcha, o setor automotivo já se encontrava em nosso Estado”.

Para quem não conhece a história recente do Rio Grande do Sul, Alba está fazendo uma menção à decisão do então governador Olívio Dutra (PT) de renegociar em 1999 os termos concedidos pelo governo anterior para Ford e GM, que tinham fechado a instalação de fábricas no estado.

A GM topou e está hoje em Gravataí. Já a Ford não aceitou e transferiu seu investimento para a Bahia. 

O episódio de 20 anos atrás é lembrado até hoje por críticos do petismo no Rio Grande do Sul, e, de maneira mais geral, contra uma certa postura anti-negócios no estado muitas vezes usando como contraposição a atitude mais “para frente” de Santa Catarina.

O Mercado Livre pode acabar ilustrando a crítica com perfeição.