Renato Carneiro, gestor de produtos da Sonda do Brasil (Foto: Divulgação)
Nos últimos anos, a diretriz da SAP para o Clean Core tem ganhado protagonismo como uma orientação estratégica da companhia para tornar os ambientes ERP (Enterprise Resource Planning) mais “limpos” por minimizar as customizações diretas no código padrão e priorizar as extensões feitas na SAP BTP (Business Technology Platform) ou por meio de APIs (Application Programming Interface), facilitando as atualizações e aumentando a agilidade e a escalabilidade do sistema.
Embora o tema tenha se tornado mais visível com a transição do SAP ECC para o SAP S/4HANA - cuja migração obrigatória até 2027 tem acelerado decisões estratégicas - o Clean Core não deve ser entendido como um conceito exclusivo do S/4HANA, mas como uma filosofia arquitetural de longo prazo.
Para muitos, a mudança ainda é percebida somente como custo adicional ou como uma atualização inevitável diante do fim do suporte ao sistema antigo, sem plena compreensão de seus benefícios estratégicos.
A adoção do Clean Core, contudo, vai além da modernização de versões. Ela permite ciclos de atualização mais ágeis, fortalece a aderência às boas práticas e facilita a incorporação contínua de novas funcionalidades liberadas pela SAP. A abordagem também estimula arquiteturas mais modulares, baseadas no uso intensivo de APIs, serviços em nuvem e integrações desacopladas, preservando a integridade e a estabilidade do ERP principal.
Ao mesmo tempo, impõe novos desafios, como o modelo de cobrança baseado em consumo do SAP BTP e a necessidade de formar equipes capazes de lidar com tecnologias como RAP (ABAP Cloud), CAP (Cloud Application Programming Model), Fiori e diversos mecanismos de integração. Essas tecnologias representam hoje as principais apostas estratégicas da SAP para extensibilidade futura, especialmente em cenários que demandam maior escalabilidade, integração e preparo para inovações como automação e inteligência artificial. Trata-se, portanto, de uma transição que exige planejamento, qualificação e maturidade técnica.
Nesse contexto, o ABAP (Advanced Business Application Programming) clássico mantém um papel relevante. Amplamente utilizado, estável e totalmente integrado aos módulos do ERP, ele sustenta processos críticos em diversas organizações e segue como uma tecnologia relevante e essencial para ambientes estabilizados, especialmente aqueles com forte dependência de lógica transacional e requisitos regulatórios. Sua robustez, a grande disponibilidade de profissionais qualificados e o baixo custo de manutenção em ambientes maduros o tornam um ativo importante dentro do landscape SAP.
A SAP reconhece esse valor e propõe uma evolução contínua para o ecossistema ABAP, classificando extensões e customizações em categorias dentro do conceito de Clean Core. Essa estrutura permite preservar investimentos realizados ao longo de décadas, ao mesmo tempo em que orienta uma transição gradual para modelos mais modernos, como ABAP Cloud, BAdIs e Extension Points.
É nesse ponto que ganha relevância uma abordagem mais pragmática para a evolução dos ambientes SAP. É importante acompanhar de forma contínua as diretrizes de Clean Core e a maturidade real das organizações, adotando a visão de que a modernização deve ocorrer de maneira progressiva e sustentável, respeitando o legado existente e evitando rupturas operacionais. Na prática, o caminho mais saudável tem sido orientar a conversão e a certificação das soluções em ABAP clássico para níveis compatíveis com o Clean Core, especialmente os níveis B e C, garantindo aderência às boas práticas, governança e compatibilidade futura.
Vale também destacar que o Clean Core não deve ser interpretado apenas como uma diretriz técnica ou arquitetural. Trata-se, sobretudo, de um modelo que exige governança sólida, disciplinada e contínua. Sem regras claras, critérios bem definidos e processos de aprovação estruturados, existe o risco de que as antigas customizações do core sejam apenas “deslocadas” para camadas externas, por meio de APIs, serviços em nuvem ou extensões mal planejadas. Nesse cenário, o problema não é eliminado, apenas muda de lugar, mantendo a complexidade, elevando custos e comprometendo a sustentabilidade do ambiente ao longo do tempo. Esse risco se intensifica quando combinado ao modelo de cobrança baseada em consumo, especialmente em ambientes com alto volume de integrações e automações.
A governança no contexto do Clean Core envolve decisões estratégicas sobre o que deve, de fato, ser customizado, quais funcionalidades podem ser atendidas por configurações padrão e quais extensões justificam investimento fora do core. Isso inclui a definição de políticas de desenvolvimento, padrões de integração, controle de consumo de serviços, gestão do ciclo de vida das extensões e alinhamento constante entre áreas de TI e negócio. Sem essa disciplina, a promessa de agilidade, previsibilidade e facilidade de atualização associada ao Clean Core tende a se perder, transformando extensões externas em um novo tipo de legado.
É importante lembrar que outro aspecto frequentemente subestimado na adoção do Clean Core é a gestão de mudança organizacional. A transição para esse modelo impacta diretamente times acostumados a desenvolver Z-programs, aplicar customizações extensivas no core e resolver demandas de negócio por meio de código proprietário.
O Clean Core exige uma mudança de mentalidade: sair de uma lógica centrada em customização para uma abordagem baseada em padrão, configuração, extensões controladas e decisões arquiteturais mais disciplinadas. Sem um trabalho estruturado de comunicação, capacitação e engajamento, é comum surgir resistência interna, o que pode comprometer a adoção do modelo e levar a atalhos técnicos que enfraquecem a governança definida.
A busca por um ERP mais limpo, sustentável e aderente ao futuro envolve tanto a valorização do ABAP clássico quanto o Clean Core, permitindo a abertura para novas plataformas, arquiteturas e modelos de desenvolvimento. O equilíbrio entre estabilizar o legado, modernizar extensões críticas e direcionar a inovação para arquiteturas mais desacopladas é o que permitirá construir ambientes preparados para evoluir de forma segura, sustentável e alinhada à estratégia de longo prazo da SAP..
*Por Renato Carneiro, gestor de produtos da Sonda do Brasil e líder regional em serviços de Transformação Digital.