CENÁRIOS

IA transforma serviços gerenciados

Qual é o papel a operação de TI nas empresas daqui para frente?

05 de fevereiro de 2026 - 13:21
Heber Lopes (Foto: Divulgação)

Heber Lopes (Foto: Divulgação)

As operações de TI que ainda dependem apenas da intuição humana para evitar falhas estão com os dias contados. A inteligência artificial tem assumido o comando e está mudando as regras do jogo: da detecção proativa de incidentes ao cumprimento automatizado de acordos de nível de serviço, nada escapa aos algoritmos. Em vez de apagar incêndios depois que ocorrem, times de TI com AIOps e automação agora previnem apagões e garantem SLAs inteligentes com mínima intervenção humana.

O resultado? Falhas previstas e evitadas antes de causarem impacto, recursos ajustados em tempo real e indisponibilidades reduzidas a praticamente zero. A incorporação da IA aos serviços gerenciados de TI está redefinindo o papel da operação nas empresas de forma acelerada e irreversível.

De reativa a proativa: operações inteligentes com AIOps

Historicamente, operar TI significava monitorar sistemas e reagir a problemas conforme eles surgiam – muitas vezes de forma manual e tardia. Hoje, esse paradigma se inverte. AIOps (Artificial Intelligence for IT Operations), termo cunhado pelo Gartner, aplica big data e machine learning para automatizar processos operacionais de TI, como correlação de eventos, detecção de anomalias e identificação de causa raiz.

A IA vasculha volumosos logs e métricas à procura de sinais sutis de alerta, correlaciona informações que humanos dificilmente conectariam e aciona respostas automáticas. Segundo o Gartner, até 2026, mais de 60% das grandes empresas globais utilizarão capacidades de AIOps integradas às suas plataformas de operações de TIOu seja, quase metade dos debates atuais sobre gestão de TI envolve algum aspecto de automação inteligente.

O apelo é claro. Ferramentas de AIOps prometem antecipar falhas e resolvê-las antes que afetem o negócio. Agentes de IA monitoram continuamente a saúde de aplicações e infraestruturas e podem tomar ações corretivas sem intervenção humana – reiniciando uma instância em pane, desviando tráfego de um servidor sobrecarregado ou alocando capacidade extra quando um pico de demanda é previsto.

Esse caráter proativo difere radicalmente do modelo tradicional. Estudos indicam que empresas com observabilidade completa reduziram em cerca de 34% a incidência de falhas de rede e serviço. Em contraste, mais da metade das organizações sem essa visibilidade plena sofrem um volume acima da média de indisponibilidades.

A automação de incidentes guiada por IA também encurta drasticamente o tempo de resposta. Insights extraídos de dados em segundos permitem identificar a causa raiz de um incidente complexo mais rápido do que analistas conseguiriam manualmente. Com automações orientadas por dados, empresas vêm alcançando reduções significativas no tempo médio de detecção e recuperação (MTTD/MTTR).

Há até casos de sistemas autorreparáveis (self-healing), nos quais algoritmos isolam e corrigem problemas automaticamente. Essa eficiência não apenas minimiza interrupções, como libera as equipes humanas para tarefas de maior valor estratégico. As longas madrugadas de “guerra de chamadas” para resolver quedas de serviço cedem lugar a um plantão muito mais tranquilo, monitorado por guardiões digitais incansáveis.

Operação de TI repensada: infraestrutura e SLAs em evolução

Com a IA tomando conta das tarefas operacionais mais repetitivas, o papel da equipe de TI dentro das empresas passa por uma ressignificação. Longe de tornar os profissionais obsoletos, essas ferramentas os alçam a um patamar mais estratégico e analítico. Cabe agora às mentes humanas definir políticas, treinar modelos, validar decisões das IAs e se concentrar naquilo que as máquinas ainda não fazem: entendimento contextual do negócio, inovação e desenho de arquiteturas resilientes.

Os modelos tradicionais de infraestrutura e acordos de nível de serviço (SLAs) também estão sendo revistos. Em vez de alocar capacidade fixa com margem de sobra para picos – que muitas vezes ficava ociosa – as empresas agora contam com infraestrutura dinâmica. Algoritmos de IA podem analisar padrões de uso e ajustar recursos em tempo real: mais VMs ou contêineres ativados nas horas de pico, menos instâncias consumindo quando o movimento cai. Essa elasticidade inteligente evita desperdícios e reduz custos.

O SLA tende a incorporar garantias de desempenho dinâmico, como tempos máximos de resposta para autoescalonamento ou rollback automático em caso de erro de implantação. Itens antes não considerados – por exemplo, tempo de detecção automática – passam a ser métricas acompanhadas de perto nos contratos.

Essa evolução também exige novos modelos de governança. Com decisões sendo tomadas por algoritmos, é fundamental estabelecer transparência e confiança nos sistemas de IA. Equipes de operação de TI se veem criando playbooks onde definem até que ponto a automação pode agir sem aval humano, ou quais cenários disparam alertas para intervenção manual. Paradoxalmente, incorporar IA à gestão de TI traz um lembrete importante: tão essencial quanto confiar na máquina é saber quando intervir. Os melhores resultados ocorrem quando humanos e IA trabalham em sinergia – a máquina incansável vigiando e otimizando, e o humano questionando, refinando e direcionando os objetivos.

No cenário brasileiro, em que investimentos em TI têm batido recordes e a maturidade digital cresce ano a ano, adotar IA na operação não é apenas seguir uma tendência global, mas também alavancar competitividade local. Relatórios recentes já destacam que 64% dos CEOs globais estão sob pressão para acelerar a adoção de IA generativa – e esse impulso se estende à modernização da própria TI interna.

As organizações que conseguirem equilibrar pessoas, processos e algoritmos sairão na frente: com ambientes híbridos mais confiáveis, entregas mais rápidas e usuários finais satisfeitos pela estabilidade dos serviços. Em última instância, a TI alimentada por IA redefine o papel da operação de “zeladora da infraestrutura” para motor de inovação estratégica. Aquilo que antes era visto como centro de custo reativo torna-se fonte de vantagem competitiva, provando que investir em inteligência – seja humana ou artificial – é o caminho para sustentar os negócios na era digital que se impõe.

*Por Heber Lopes, Head de Produtos e Marketing na Faiston.