Renata Rivetti (Foto: Divulgação)
Existe uma recomendação que se tornou comum entre as pessoas e em alguns discursos sobre carreira: se o trabalho faz mal, basta sair. A ideia parece simples, quase libertadora. Mas para grande parte das pessoas, abandonar um emprego que adoece não é uma decisão emocional — é um risco financeiro, quase uma decisão impossível. Assim, pessoas permanecem em ambientes tóxicos e que desgastam por necessidade, enquanto a saúde mental vai sendo corroída dia após dia.
Os números ajudam a entender a dimensão do problema. Os afastamentos por burnout triplicaram no Brasil nos últimos dois anos, chegando a 6.985 casos em 2025, segundo levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), divulgado em janeiro. Ao mesmo tempo, de acordo com uma pesquisa da Wellhub quase metade dos trabalhadores (47%) associa o estresse ocupacional à piora da própria saúde mental.
O dilema é real: quase metade dos brasileiros vive sob pressão constante, em empregos que desgastam, mas não podem simplesmente sair. Contas para pagar, família para sustentar, mercado competitivo e insegurança econômica.
Diante desse cenário, surge uma resposta comportamental cada vez mais comum — fazer apenas o necessário para manter o vínculo. A reação instintiva de quem vive essa situação é fazer o mínimo, o chamado "quiet quitting”. Mas isso deixa a pessoa mais entediada, desengajada e infeliz. Sem recuperação do estresse, o adoecimento é questão de tempo.
Mudanças práticas e estratégias de sobrevivência podem criar condições mínimas de sustentabilidade enquanto o profissional mapeia próximas opções. Uma delas é redesenhar atividades (Job Crafting) identificando tarefas que a pessoa pode automatizar, delegar ou até mesmo eliminar, focando no estratégico e criativo, não no operacional que a tecnologia já é capaz de resolver.
É importante estabelecer limites fora do expediente, como por exemplo, não responder mensagens de trabalho fora do horário de trabalho, recusar reuniões tarde da noite, fazer pausas de cinco minutos ao longo do dia. Precisamos aprender a botar limites para nos recuperarmos do estresse. Outra dica de outro é que a pessoa busque significado, não propósito.
O trabalho não precisa ser o grande propósito da vida. Mas vale identificar como ele impacta pessoas, como suas entregas se conectam a resultados maiores, quais habilidades é possível desenvolver com ele. Cultivar relações saudáveis também ajuda. Então a pessoa pode identificar dois ou três colegas que admira e cultivar conversas reais, buscando mentorias. Por fim, criar rituais de desconexão, encerrando o expediente com um gesto simbólico: desligar a luz, caminhar cinco minutos, escrever uma linha de gratidão, algo que marque o fato de o trabalho ter sido encerrado.
Não são soluções definitivas, mas que ajudam profissionais a atravessar períodos difíceis. É importante, porém, que os líderes estejam atentos, pois estratégias individuais não podem virar desculpa para a empresa continuar oferecendo um ambiente tóxico. Minha recomendação é sempre ter um olhar para a raiz do problema. Afinal, o indivíduo pode fazer diferença no próprio bem-estar, mas a transformação das culturas organizacionais é urgente.
*Por Renata Rivetti, especialista na ciência da felicidade, TEDx speaker, LinkedIn Top Voice, colunista e autora do “O Poder do bem-estar: um guia para redesenhar o futuro do trabalho” pelo selo Objetiva da Companhia das Letras.