Sandra Vaz (Foto: Divulgação)
Um dos grandes desafios contemporâneos é reconhecer o momento certo de parar e escutar. Em um cotidiano guiado pela IA, lógica da alta performance e da multitarefa, reservar alguns minutos para ouvir o outro parece quase um luxo — mas é, na verdade, uma necessidade estratégica.
Gilles Deleuze e Pierre-Félix Guattari, em Uma Filosofia para o Século, lembram que os períodos de percepção e escuta são também tempos de construção, reflexão e preparação para decisões importantes. Ainda assim, muitas pessoas veem o ato de pedir ajuda ou compartilhar dificuldades como demonstração de fraqueza. Pelo contrário: é justamente nessa escuta genuína que abrimos espaço para perspectivas diferentes e encontramos soluções mais completas.
Mas, como revela pesquisa recente do The Economist, embora empresas estejam se posicionando para melhorar o diálogo entre áreas e estimular mais abertura entre colaboradores, 44% dos profissionais relataram que a falta de comunicação causou atrasos ou falhas na conclusão de projetos. Quanto ao impacto direto nos negócios, 18% afirmam que as falhas levaram à redução das vendas. Problemas de comunicação também contribuíram para estresse (52%) e desânimo (31%).
Quando o desafio é ainda maior para mulheres
Para as mulheres, essa realidade se intensifica. Além de representarem minoria em cargos de liderança, tanto em empresas tradicionais quanto em startups — cerca de 17,4%, segundo levantamento recente da Insper— muitas acumulam jornadas duplas ou triplas, dividindo-se entre carreira, responsabilidades domésticas e cuidados familiares. Recentemente assisti a série “All her Fault”, na Amazon Prime, que relata com muita profundidade este tema e abre esta questão tão importante, recomendo-a fortemente, tanto para homens como mulheres.
Não surpreende, portanto, que o Fórum Econômico Mundial identifique a sobrecarga mental como um dos principais fatores que levam mulheres a abandonarem carreiras ou enfrentarem frustração e desgaste emocional.
Sororidade, empatia e o novo olhar sobre liderança
Nos últimos anos, o termo sororidade tornou-se mais presente em debates públicos e na mídia. Muitas vezes mal compreendido, ele não diz respeito a polarização do debate político, mas sim com a prática de apoio mútuo, escuta e empatia entre mulheres.
No ambiente corporativo, porém, o conceito ganha uma dimensão mais profunda:
- envolve diálogo estruturado,
- colaboração real entre equipes,
- criação de espaços seguros,
- e promoção ativa de mulheres em posições de decisão.
Para além de buscar equidade de gênero, colocar mulheres no centro do planejamento empresarial gera resultados concretos. Um estudo do FMI em 34 países europeus constatou que organizações com maior diversidade de gênero em cargos de liderança registram aumento de 8 a 13 pontos percentuais na rentabilidade dos ativos.
Além disso, sororidade não significa replicar modelos masculinos de liderança. Como defende Simon Sinek na obra Líderes se Servem por Último, o fortalecimento das chamadas Human Skills: empatia, cooperação, confiança, é o que sustenta equipes seguras e de alta performance. Esses são atributos que mulheres, historicamente, sempre exercitaram com profundidade.
Daí a força da mentoria: conectar líderes experientes a mulheres em ascensão é uma ferramenta poderosa para acelerar aprendizagens e abrir caminhos.
A síndrome do impostor e o medo de não pertencer
Outro obstáculo que ainda afeta muitas mulheres é a síndrome do impostor — a sensação de não ser boa o suficiente ou de estar assumindo um papel para o qual não se está preparada. Essa condição marcou trajetórias de nomes como Angela Merkel, Michelle Obama e Maya Angelou e aparece como o principal temor entre líderes femininas, segundo o relatório Acelerando o Futuro das Mulheres nos Negócios, da KPMG.
Vale ressaltar: esse não é um sentimento exclusivo das mulheres. Um estudo da Universidade Dominicana da Califórnia mostrou que 70% dos profissionais, homens, mulheres e pessoas não binárias, já se sentiram uma farsa no ambiente de trabalho.
Mais uma vez, a sororidade oferece um caminho. A Forbes, em levantamento com empresas norte-americanas, identificou que culturas de apoio, empatia e comunicação aberta resultam em colaboradores até seis vezes mais produtivos.
Construir, todos os dias, relações mais humanas
A verdadeira transformação não nasce de discursos inspiradores ou de ações isoladas do setor de Recursos Humanos. Ela exige prática. Exige intencionalidade.
Entre os caminhos possíveis estão:
- palestras, workshops e formações sobre comunicação empática;
- programas de mentoria e lideranças femininas;
- ambientes seguros para conversas difíceis;
- políticas que reconheçam e acolham diferentes trajetórias e realidades.
Empresas que adotam uma comunicação integrada — transparente, inclusiva e humanizada — colhem não apenas melhores resultados, mas também equipes mais criativas, confiantes e conectadas.
Se queremos ambientes mais inovadores, produtivos e sustentáveis, precisamos investir em lideranças femininas, em empatia e no poder transformador da escuta. Apostar em mulheres não é uma concessão: é uma estratégia de crescimento, impacto e longevidade para as organizações.
No fim, a força de uma ideia se manifesta exatamente aí: no brilho dos olhos de quem experimenta uma liderança que acolhe, transforma e promove o melhor de cada pessoa, e que entende que apostar em mulheres é apostar em resultados reais e não apenas um tema de diversidade.
*Por Sandra Vaz, presidente da Red Hat Brasil.