VIRADA

A IA tornou o software corporativo obsoleto

Salesforce, Adobe e SAP registraram quedas relevantes, o que mostra que o mercado está mudando.

06 de fevereiro de 2026 - 14:16
Rodrigo Palhano, sócio-fundador da TecnoSpeed (Foto: Divulgação)

Rodrigo Palhano, sócio-fundador da TecnoSpeed (Foto: Divulgação)

Durante décadas, o software corporativo viveu sob a promessa da previsibilidade. ERPs, CRMs e plataformas de gestão foram construídos como infraestruturas estáveis, baseadas em contratos longos, ciclos claros de desenvolvimento e uma lógica incremental de evolução. Essa previsibilidade sustentou modelos de negócio sólidos e pouco questionados. A tese que se impõe agora é que essa estabilidade está se rompendo. A ascensão acelerada da inteligência artificial (IA)  redefine não só produtos, como também o conceito de sistemas digitais enquanto ferramenta fixa no ambiente empresarial.

Desde 2023, e de forma mais evidente ao longo de 2025, a IA passou a reorganizar expectativas sobre eficiência, custo e utilidade dos sistemas corporativos. Segundo análises de mercado publicadas pela Melius Research, a reação negativa dos investidores após lançamentos recentes da OpenAI reflete um receio concreto de substituição funcional. Em agosto de 2025, ações de empresas como Salesforce, Adobe e SAP registraram quedas relevantes, sinalizando que o mercado passou a enxergar parte das funcionalidades tradicionais como passíveis de serem absorvidas por soluções baseadas em linguagem natural e automação inteligente. O problema não é técnico, mas conceitual. Quando um assistente resolve em segundos tarefas que exigiam dezenas de telas, o valor da interface entra em xeque.

Ao mesmo tempo, a narrativa de disrupção total esbarra em limites práticos. Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) mostrou que 95% dos projetos piloto com IA generativa em grandes empresas não geraram retorno mensurável. Esse dado expõe um paradoxo incômodo: a tecnologia avança rapidamente, mas sua aplicação efetiva ainda enfrenta obstáculos estruturais de integração, governança e confiabilidade. Isso reforça a ideia de que a crise não é apenas de adoção, e sim de modelo. Não basta adicionar IA a sistemas antigos esperando que a promessa se cumpra automaticamente.

Esse descompasso se torna ainda mais evidente quando se observa como os usuários corporativos interagem com esses sistemas. A robustez técnica, por si só, deixou de ser suficiente para sustentar a relevância das plataformas empresariais. Estabilidade, compliance e segurança seguem como requisitos básicos, mas já não definem vantagem competitiva. O comportamento dos usuários mudou de forma clara: análises recentes de consultorias como a McKinsey indicam que profissionais passaram a priorizar fluidez, adaptação e redução de fricção no uso cotidiano das ferramentas. Assim, um sistema pode ser tecnicamente impecável e ainda se tornar inadequado se exige treinamentos extensivos ou não se integra de forma natural ao ecossistema digital já presente no dia a dia das organizações.

O impacto dessa transformação vai além da tecnologia e alcança o papel do desenvolvedor. O diferencial deixa de ser a capacidade de entregar grandes sistemas fechados e passa a residir na habilidade de decidir o que vale a pena construir. A pergunta central não é mais como codar uma funcionalidade, mas se ela precisa existir como software dedicado ou se pode ser resolvida por uma camada inteligente integrada a ferramentas já existentes. Segundo dados do Gartner, arquiteturas modulares e soluções orientadas a integração tendem a crescer mais rápido do que plataformas monolíticas nos próximos ciclos de investimento.

Portanto, a crise do software tradicional não anuncia o fim do código, mas o fim da previsibilidade que o cercava. O desenvolvimento corporativo entra em uma fase em que escuta, contexto e adaptação contínua passam a ser tão importantes quanto engenharia. Em um ambiente onde a IA redefine o que significa resolver um problema, insistir em modelos rígidos é um risco estratégico. O futuro dos sistemas digitaise pertence menos a quem constrói sistemas completos e mais a quem entende quando, como e por que construir.

*Por Rodrigo Palhano, sócio-fundador da TecnoSpeed.