FUTURO

A SAP irá sobreviver à IA?

A resposta passa por se o ERP como conhecemos seguirá sendo o centro da operação empresarial.

10 de fevereiro de 2026 - 14:50
Reges Bronzatti (Foto: Linkedin)

Reges Bronzatti (Foto: Linkedin)

Sim, é uma grande provocação para reflexão do mercado de tecnologia. Por décadas, a SAP talvez seja a personificação do ERP corporativo. Dono de uma base instalada gigantesca, receitas recorrentes e uma hierarquia de módulos que cruzam contabilidade, logística, manufatura e vendas, a SAP foi, e ainda é, sinônimo de controle empresarial.

Mas hoje há um debate emergente em mercados, comunidades técnicas e pesquisas que questiona:

O ERP como o conhecemos continuará a ser o centro da operação empresarial quando a Inteligência Artificial (IA) começa a assumir funções de decisão e ação?

A resposta não é óbvia, mas os sinais já estão aí.

Neste último dia 3 de fevereiro de 2026, a Business Insider publicou um artigo com um título que deve virar mantra no setor: “Software ate the world. Now AI is eating software.” 

A tese é direta:

Depois de o software dominar todos os setores da economia, a IA está começando a absorver o próprio software.

O que isso significa em termos práticos? Indica que agentes de IA capazes de interpretar intenções empresariais, aplicar regras e executar ações com autonomia estão começando a desintermediar soluções corporativas modulares, inclusive ERPs tradicionais.

E este pode ser um ponto perigoso para a SAP e todos outros ERP´s de mercado.

O ERP clássico nasceu em um mundo de:

  1. Processos estáveis e previsíveis: que podiam ser mapeados e hard-coded.
  2. Interface obrigatoriamente humana: o usuário clica, navega e confirma.
  3. Centralização do controle em módulos rígidos.

Já as IA vivem de:

  • Probabilidade, não de regras fixas.
  • Interpretação de intenção, não de cliques.
  • Adaptação contínua, não de customização estática.

Pesquisadores que estudam AI-first business process agents já demonstraram protótipos que entendem políticas de negócio, exceções operacionais e objetivos organizacionais, e podem executar processos completos, sem depender de arquiteturas ERP tradicionais. Vejam esta publicação de 28 de junho de 2025.

Não é teoria abstrata: é a base técnica de agentes que interpretam regras e executam workflows autonomamente.

Imagine uma requisição de compra. Hoje, um usuário passa por uma sequência de telas, aprovações e transações no ERP para gerar esse pedido.

A IA entraria com uma conversa mais ou manos assim:

“Precisamos repor o estoque da planta da filial 4 de São Paulo respeitando o orçamento vigente.”

O agente:

  • interpreta a intenção,
  • verifica regras de compliance,
  • negocia com fornecedores,
  • finaliza a compra,
  • registra o resultado.

Nenhum SAP MM seria necessário se chegarmos neste ponto de automação ou de autonomia da IA. Obviamente, a base de tudo isso, que são os dados, deverão ou deveriam estar lá, organizados e controlador para que a IA possa executar isso. Dentro ou fora do SAP. 

Esse movimento, da interface rígida para a linguagem natural e autonomia de ação , é parte da lógica que está começando a corroer a dependência do ERP como “centro de comando”.

Isso é para 2026 ? claro que não, mas se olharmos para os próximos 5 ou 10 anos, talvez esta premissa, que hoje, pode até ser fantasiosa ou utópica, pode se concretizar com algum novo entrante neste mercado de automação de processos e gestão de negócios. E como investimentos em ERP são feitos por 10, 20 ou ate 30 anos, podemos estar em uma bela encruzilhada de decisões neste momento. 

A reação não está apenas nas discussões acadêmicas. Analistas globais veem nos mercados de ações um sinal claro de que investidores começam a precificar essa disrupção.

Recentemente, em 29 de janeiro de 2026, a Reuters publicou que as ações de empresas de software corporativo, incluindo grandes players tradicionais, tiveram queda significativa diante de resultados e projeções que traziam medo de disrupção por IA.

A frase usada por analistas foi a de uma “shadow of uncertainty”, uma sombra de incerteza, sobre como receitas SaaS baseadas em módulos e licenças vão se comportar num mundo em que a IA pode executar funções inteiras de maneira mais barata, adaptável e sem telas rígidas. Se o SAP será um grande Saas, talvez ele esteja neste mar de incertezas em um futuro breve. Não sabemos, mas criar hipóteses e cenários baseados nos sinais é, no mínimo, prudente.

Nada disso significa que a SAP vai “desaparecer” da noite para o dia. Gigantes com base instalada e contratos de longo prazo não somem com facilidade. Mas a ameaça real não é destruição imediata. É o que chamamos de redução de centralidade estratégica.

À medida que:

  • a IA assume decisão,
  • a IA automatiza execução,
  • a IA substitui o papel do usuário intermediário,
  • a IA unifica fluxos que antes exigiam múltiplos módulos…

…o ERP tende a virar infraestrutura de registro: um sistema que armazena dados, trilhas de auditoria e compliance, mas que deixa a inteligência, a ação e a adaptação fora de si ou que possa vir de um ambiente externo.

E quando algo vira infraestrutura, ele é comoditizado, e isso reduz margens e poder de negociação.

Se seu sistema atual deixasse de ser o centro de decisão, mas ainda fosse o repositório de fato para dados fiscais, contábeis e regulatórios… ele “sobreviveria”?

Essa é a questão no coração da provocação:

Sobreviver não é permanecer soberano. Sobreviver é continuar relevante.

E conforme a IA distribuída, impulsionada por agentes autônomos, linguagem natural e aprendizado contínuo , passa a agir como a camada de inteligência entre negócio e execução, o ERP tradicional corre o risco de se tornar apoio de palco em vez de protagonista.

A resposta para a pergunta ou provocação do título é sim, a SAP pode sobreviver à IA, mas isso exige e exigirá uma transformação profunda ( que a SAP está fazendo obviamente) de:

  • modelo de produto,
  • modelo de receita,
  • cultura de desenvolvimento,
  • e relação com clientes.

Não é uma escolha técnica: é estratégica.

E a verdade é clara:

Quando a IA assume a decisão, o ERP tradicional perde o papel de cérebro, e vira sistema de registro. Isso não é morte imediata. É perda de centralidade. E isso pode ser pior do que desaparecer no médio e longo prazo.

Um dia, alguém perceberá que as decisões já não nascem no ERP. Que as ações já não partem das telas. Que os usuários já não são o motor da operação. O ERP continuará lá. Registrando. Auditando. Armazenando.

Mas o cérebro… estará em outro lugar.

Quando a inteligência passa a viver fora do sistema, o sistema perde poder. Quando a decisão migra, a soberania acompanha. E quando o protagonismo se vai, o tamanho deixa de importar.

A pergunta, portanto, mesmo que provocativa, não é se a SAP sobreviverá à inteligência artificial. A pergunta real é:

Quem ainda estará tomando decisões no seu lugar quando você perceber que ela sobreviveu, mas deixou de mandar?

Bons Negócios a Todos. Ainda dá tempo de AJUSTAR a ROTA....

*Por Reges Bronzatti, advogado especialista em tecnologia.