Reges Bronzatti (Foto: Linkedin)
Sim, é uma grande provocação para reflexão do mercado de tecnologia. Por décadas, a SAP talvez seja a personificação do ERP corporativo. Dono de uma base instalada gigantesca, receitas recorrentes e uma hierarquia de módulos que cruzam contabilidade, logística, manufatura e vendas, a SAP foi, e ainda é, sinônimo de controle empresarial.
Mas hoje há um debate emergente em mercados, comunidades técnicas e pesquisas que questiona:
O ERP como o conhecemos continuará a ser o centro da operação empresarial quando a Inteligência Artificial (IA) começa a assumir funções de decisão e ação?
A resposta não é óbvia, mas os sinais já estão aí.
Neste último dia 3 de fevereiro de 2026, a Business Insider publicou um artigo com um título que deve virar mantra no setor: “Software ate the world. Now AI is eating software.”
A tese é direta:
Depois de o software dominar todos os setores da economia, a IA está começando a absorver o próprio software.
O que isso significa em termos práticos? Indica que agentes de IA capazes de interpretar intenções empresariais, aplicar regras e executar ações com autonomia estão começando a desintermediar soluções corporativas modulares, inclusive ERPs tradicionais.
E este pode ser um ponto perigoso para a SAP e todos outros ERP´s de mercado.
O ERP clássico nasceu em um mundo de:
- Processos estáveis e previsíveis: que podiam ser mapeados e hard-coded.
- Interface obrigatoriamente humana: o usuário clica, navega e confirma.
- Centralização do controle em módulos rígidos.
Já as IA vivem de:
- Probabilidade, não de regras fixas.
- Interpretação de intenção, não de cliques.
- Adaptação contínua, não de customização estática.
Pesquisadores que estudam AI-first business process agents já demonstraram protótipos que entendem políticas de negócio, exceções operacionais e objetivos organizacionais, e podem executar processos completos, sem depender de arquiteturas ERP tradicionais. Vejam esta publicação de 28 de junho de 2025.
Não é teoria abstrata: é a base técnica de agentes que interpretam regras e executam workflows autonomamente.
Imagine uma requisição de compra. Hoje, um usuário passa por uma sequência de telas, aprovações e transações no ERP para gerar esse pedido.
A IA entraria com uma conversa mais ou manos assim:
“Precisamos repor o estoque da planta da filial 4 de São Paulo respeitando o orçamento vigente.”
O agente:
- interpreta a intenção,
- verifica regras de compliance,
- negocia com fornecedores,
- finaliza a compra,
- registra o resultado.
Nenhum SAP MM seria necessário se chegarmos neste ponto de automação ou de autonomia da IA. Obviamente, a base de tudo isso, que são os dados, deverão ou deveriam estar lá, organizados e controlador para que a IA possa executar isso. Dentro ou fora do SAP.
Esse movimento, da interface rígida para a linguagem natural e autonomia de ação , é parte da lógica que está começando a corroer a dependência do ERP como “centro de comando”.
Isso é para 2026 ? claro que não, mas se olharmos para os próximos 5 ou 10 anos, talvez esta premissa, que hoje, pode até ser fantasiosa ou utópica, pode se concretizar com algum novo entrante neste mercado de automação de processos e gestão de negócios. E como investimentos em ERP são feitos por 10, 20 ou ate 30 anos, podemos estar em uma bela encruzilhada de decisões neste momento.
A reação não está apenas nas discussões acadêmicas. Analistas globais veem nos mercados de ações um sinal claro de que investidores começam a precificar essa disrupção.
Recentemente, em 29 de janeiro de 2026, a Reuters publicou que as ações de empresas de software corporativo, incluindo grandes players tradicionais, tiveram queda significativa diante de resultados e projeções que traziam medo de disrupção por IA.
A frase usada por analistas foi a de uma “shadow of uncertainty”, uma sombra de incerteza, sobre como receitas SaaS baseadas em módulos e licenças vão se comportar num mundo em que a IA pode executar funções inteiras de maneira mais barata, adaptável e sem telas rígidas. Se o SAP será um grande Saas, talvez ele esteja neste mar de incertezas em um futuro breve. Não sabemos, mas criar hipóteses e cenários baseados nos sinais é, no mínimo, prudente.
Nada disso significa que a SAP vai “desaparecer” da noite para o dia. Gigantes com base instalada e contratos de longo prazo não somem com facilidade. Mas a ameaça real não é destruição imediata. É o que chamamos de redução de centralidade estratégica.
À medida que:
- a IA assume decisão,
- a IA automatiza execução,
- a IA substitui o papel do usuário intermediário,
- a IA unifica fluxos que antes exigiam múltiplos módulos…
…o ERP tende a virar infraestrutura de registro: um sistema que armazena dados, trilhas de auditoria e compliance, mas que deixa a inteligência, a ação e a adaptação fora de si ou que possa vir de um ambiente externo.
E quando algo vira infraestrutura, ele é comoditizado, e isso reduz margens e poder de negociação.
Se seu sistema atual deixasse de ser o centro de decisão, mas ainda fosse o repositório de fato para dados fiscais, contábeis e regulatórios… ele “sobreviveria”?
Essa é a questão no coração da provocação:
Sobreviver não é permanecer soberano. Sobreviver é continuar relevante.
E conforme a IA distribuída, impulsionada por agentes autônomos, linguagem natural e aprendizado contínuo , passa a agir como a camada de inteligência entre negócio e execução, o ERP tradicional corre o risco de se tornar apoio de palco em vez de protagonista.
A resposta para a pergunta ou provocação do título é sim, a SAP pode sobreviver à IA, mas isso exige e exigirá uma transformação profunda ( que a SAP está fazendo obviamente) de:
- modelo de produto,
- modelo de receita,
- cultura de desenvolvimento,
- e relação com clientes.
Não é uma escolha técnica: é estratégica.
E a verdade é clara:
Quando a IA assume a decisão, o ERP tradicional perde o papel de cérebro, e vira sistema de registro. Isso não é morte imediata. É perda de centralidade. E isso pode ser pior do que desaparecer no médio e longo prazo.
Um dia, alguém perceberá que as decisões já não nascem no ERP. Que as ações já não partem das telas. Que os usuários já não são o motor da operação. O ERP continuará lá. Registrando. Auditando. Armazenando.
Mas o cérebro… estará em outro lugar.
Quando a inteligência passa a viver fora do sistema, o sistema perde poder. Quando a decisão migra, a soberania acompanha. E quando o protagonismo se vai, o tamanho deixa de importar.
A pergunta, portanto, mesmo que provocativa, não é se a SAP sobreviverá à inteligência artificial. A pergunta real é:
Quem ainda estará tomando decisões no seu lugar quando você perceber que ela sobreviveu, mas deixou de mandar?
Bons Negócios a Todos. Ainda dá tempo de AJUSTAR a ROTA....
*Por Reges Bronzatti, advogado especialista em tecnologia.