IDEIAS

Que não faltem calculadoras

Com a inteligência artificial, o trabalho de reflexão não é dificultado; é suprimido.

25 de fevereiro de 2026 - 12:08
Liandro Bulegon (Foto: Divulgação)

Liandro Bulegon (Foto: Divulgação)

A história demonstra que a escrita vem ganhando terreno sobre a fala há muito tempo e que, ao contrário do que se pensa, ela soterra a verdade por meio de uma falsa sensação de presença. Mais do que isso, ela se traduz em memória morta e distanciada do fato real, do acontecimento. A escrita parece lembrar, mas o que ela faz, de verdade, é esquecer. Ao deslocar a memória viva para outro lugar — que não o ato de presença típico da fala — ela separa, em vez de aproximar. A era do esquecimento não é uma era sem memória: é uma era da memória terceirizada, deslocada do sujeito e fixada em sistemas externos. 

Nessa geografia da escrita, compreender exige tempo, repetição e retorno, algo que a linguagem imediata (oral, imagética, sensível) não comporta. A escrita exige releitura; a fala e a imagem, por sua vez, oferecem entendimento imediato e superficial, no qual os detalhes escapam ao campo perceptível, eliminando a possibilidade do retorno. Esquecemos não porque perdemos algo, mas porque não permanecemos tempo suficiente em nada. 

O mundo registrado pela escrita tem na metáfora sua maior aliada na tentativa de fazer surgir o invisível. Mas, normalmente, falha ao substituir a experiência real por uma imagem confortável. E, quando ela se torna dominante, o pensamento deixa de enfrentar a possibilidade de resistir à linguagem, e nos tornamos reféns da própria linguagem. Então, em vez de libertar, a metáfora anestesia, prende e distância. Por outro lado, a imagem oferece um instante de significação, um gatilho de imaginação: uma espécie de “ver imediato”, mas não um “compreender”. Onde tudo é visível, nada precisa ser lembrado. 

Pensar exige uma relação com o invisível, com o que não se mostra e com o que precisa ser lembrado — algo muito além da escrita ou da fala. Isso exige reflexão, que é sempre um movimento de retorno: um movimento em que o jogo cognitivo das significações e da memória é revisitado e reconstruído numa espiral infinita de atualizações, na qual compreender é diferente de reconhecer. Reconhecer é rápido (“já visto”); compreender é lento e se encontra no campo do “ainda não sei”. O esquecimento contemporâneo não nasce da ausência de informação, mas do excesso de mediações que nos poupam do trabalho de lembrar. 

Mas já não estamos mais nessa fase; isso já é passado. Eu me lembro da época em que se discutiam as mudanças ocorridas pela intensificação da interação que o hiperlink causou. Alex Primo, infalivelmente, capturou o espírito do tempo e o epicentro da discussão ao afirmar que, no tempo da TV, do rádio e do jornal impresso, a seta da equação apontava para o receptor e que, depois da “revolução da internet”, a seta se voltaria para o canal — e que o indivíduo, de “espectador”, teria se transformado em “agente”. A mediação, então, passou a ser entendida como interação. 

Com o uso da IA em escala, o conceito de mediação ou interação já não satisfaz; estamos para além deles. Isso porque mediação ou interação pressupõe três elementos distintos: um sujeito, um “mundo” e algo entre eles. Com a IA, vamos para outra escala, porque ela não apenas intermedia: além de intermediar, filtra, organiza, recomenda e acelera. Ela passa a antecipar, completar, responder e pensar junto (ou no lugar). Isso desloca o eixo da interação para outra instância. Não é mais o “humano usando uma mediação”; é um ambiente cognitivamente ativo no qual o humano opera — ou é “operado”.

Esse estado é de “interação profunda” ou “para além da interação”. Já não é mais necessário lembrar: a IA faz isso pelo indivíduo. Já não é mais necessário formular: a IA formula pelo indivíduo. Já não é mais necessário comparar: a IA decide. Já não é necessário retornar: a IA resume. E o trabalho de reflexão não é dificultado; é suprimido. 

E é significativo que isso mude, porque a memória exige retorno. O retorno exige esforço, e o esforço exige tempo. E a IA remove o esforço, o tempo e a necessidade de retorno, fechando o ciclo antes que a reflexão aconteça. 

Assim, nos encontramos, indiscutivelmente, no tempo da reflexão terceirizada. Não é mais só questão de esquecimento; agora é mais profundo — e precisamos, urgentemente, nomear isso. Na falta de um termo específico que condense o tema em suas entranhas significativas, podemos falar em Era da Pós-Reflexão, Delegação Cognitiva ou qualquer outro termo que faça frente a este desafio que a verdade nos solicita, até que consigamos um melhor, mais apropriado e robusto para designar nossa aflição contemporânea. 

Para não parecer algo tão estranho, é mais ou menos como quando nos acostumamos a usar calculadora para fazer contas. Depois que pegamos o hábito, não esquecemos como se calcula de cabeça, mas ficamos nervosos quando precisamos calcular e não há uma por perto. Isso não podemos negar. 

*Por Liandro Bulegon, arquiteto de software da Menoki.