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Florianópolis virou destino de nômades digitais

A estimativa é que, até 2030, a capital receba mais de 15 mil desses trabalhadores por ano.

28 de novembro de 2025 - 11:59
Walmoli Gerber, vice-presidente de marketing da ACATE (Foto: Divulgação)

Walmoli Gerber, vice-presidente de marketing da ACATE (Foto: Divulgação)

A transformação de Florianópolis não é silenciosa. Quem vive aqui sente, vê e participa dela todos os dias. A cidade mudou. E vem mudando rápido. A presença cada vez maior de nômades digitais já não é novidade para quem frequenta coworkings, cafés, eventos de tecnologia ou mesmo bairros que antes eram mais residenciais e hoje abrigam comunidades inteiras de profissionais de fora, trabalhando de seus notebooks com o mar ao fundo. Os dados ajudam a dimensionar o fenômeno: a estimativa é que, até 2030, a capital receba mais de 15 mil desses trabalhadores por ano, com impacto de R$ 1,5 bilhão na economia local, segundo o Observatório Digital Nomads Florianópolis. O número, embora impressionante, só confirma o que já é realidade no cotidiano da cidade.

Esses profissionais não vêm apenas por causa das praias. Vêm porque encontram aqui um ambiente que permite viver bem e produzir com qualidade. Florianópolis tem um ecossistema de inovação ativo, com startups, centros de inovação, universidades, conexões com investidores e uma mentalidade empreendedora que se espalhou pelos bairros e já é parte do modo de vida. A cidade criou uma cultura digital sólida, que atrai não só empresas, mas também talentos individuais que trabalham de forma remota para o mundo inteiro. Isso vem acontecendo de forma constante, visível, e com efeitos claros na economia, na urbanização e na identidade da cidade.

Não é exagero dizer que estamos diante de um novo tipo de capital. Uma cidade que cresce puxada não por indústrias ou obras gigantescas, mas por gente que escolhe viver aqui por estilo de vida, valores e oportunidades. São profissionais de tecnologia, marketing, produto, design, criativos, empreendedores. Gente que poderia estar em Lisboa, Buenos Aires ou Barcelona, mas decide morar em Floripa. Esse fluxo movimenta o setor de serviços, altera a dinâmica dos bairros, aquece o mercado imobiliário, impulsiona a gastronomia, cria redes de negócio e fortalece nossa marca internacional.

Mas essa aceleração também traz desafios. Mobilidade, habitação, equilíbrio ambiental, acesso à cidade. Não podemos repetir erros comuns de outros destinos que se tornaram globais da noite para o dia, mas não se prepararam para isso. As mudanças precisam ser acompanhadas de políticas públicas consistentes, que olhem para o presente com responsabilidade e para o futuro com planejamento. É preciso garantir que a cidade continue viável para quem nasceu aqui, para quem sempre morou aqui, para quem ainda vai chegar.

A ACATE atua nesse contexto como uma ponte entre realidades. Conectamos empresas locais a mercados globais, preparamos o terreno para quem quer empreender, aceleramos startups, recebemos investidores e criamos espaços onde diferentes culturas e formas de pensar se encontram. Os nômades digitais, que vêm por um mês e muitas vezes acabam ficando, também são parte desse ecossistema. Eles trazem novas referências, ajudam a oxigenar o ambiente de inovação e ampliam a visão de mundo das empresas locais. Isso gera negócios, conexões e oportunidades reais.

Nesse processo, a forma como Florianópolis se apresenta para o mundo precisa evoluir. Temos que reforçar nossa imagem como cidade de inovação, com uma comunicação estratégica, em várias línguas, que mostre o que estamos construindo aqui: um território onde é possível viver bem, empreender com impacto e se conectar com as transformações que estão moldando o futuro do trabalho. Não se trata mais de atrair turistas, mas de criar raízes com quem quer construir algo a longo prazo.

A presença dos nômades digitais é um retrato claro da nova geografia do trabalho. Não é mais possível pensar em cidade sem pensar em talentos. Não se trata apenas de atrair profissionais qualificados, mas de criar uma cidade capaz de manter e desenvolver essas pessoas. E isso exige visão, articulação e ação. Florianópolis tem todas as condições para se tornar referência global nesse novo cenário. Agora, é hora de consolidar esse caminho com inteligência e compromisso.

*Por Walmoli Gerber, vice-presidente de marketing da ACATE.