CAUSAS

Por que líderes falham sob pressão

A neurociência revela que ninguém lidera acima do próprio cérebro.

19 de janeiro de 2026 - 12:56
Evandro Lopes, CEO da SLcomm (Foto: Divulgação)

Evandro Lopes, CEO da SLcomm (Foto: Divulgação)

Durante décadas, liderança foi tratada como uma combinação de cargo, experiência e discurso. Presumia-se que, com autoridade formal e repertório técnico, alguém automaticamente se tornaria um bom líder. Essa ideia já não se sustenta. A liderança real não é exercida apenas no plano racional, mas condicionada pelo estado biológico de quem lidera. A tese é simples e incômoda: ninguém lidera acima do próprio cérebro. O que se entrega ao time, à organização e às decisões estratégicas é sempre o reflexo do estado neural em que esse líder opera diariamente.

A neurociência tem mostrado, de forma consistente, que decisões não nascem da razão pura. Segundo o neurocientista Antonio Damasio, decisões humanas são orientadas por marcadores somáticos, estados emocionais registrados no corpo e no cérebro que antecedem a consciência racional. Complementarmente, Daniel Kahneman demonstrou que a maior parte das decisões é conduzida pelo Sistema 1, rápido, automático e emocional, enquanto o Sistema 2, mais racional e analítico, entra em ação apenas em situações específicas e com alto custo cognitivo. Em termos práticos, isso significa que o líder acredita estar decidindo de forma lógica, quando na verdade o cérebro já decidiu antes, a partir do estado interno em que se encontra.

Esse descompasso se torna evidente em ambientes de pressão. Um líder pode dominar o conteúdo de uma reunião, apresentar dados sólidos e articular bem as palavras, mas o time percebe outra mensagem. A respiração curta, a rigidez corporal e o tom de voz acelerado sinalizam ameaça. Estudos em neurociência do estresse indicam que níveis elevados de cortisol e a ativação da amígdala reduzem a eficiência do córtex pré-frontal, área responsável por planejamento, empatia, criatividade e autorregulação.

Pesquisas do Oxford Review mostram que o estado emocional do líder impacta diretamente o desempenho coletivo, ao demonstrar que líderes que expressam estados emocionais positivos aumentam desempenho, motivação e qualidade do processamento de informações das equipes. Além disso, líderes com maior foco neural cometem até 20% menos erros em decisões de alto risco, enquanto a fadiga cognitiva pode comprometer o julgamento em cerca de 15%. O resultado desse desequilíbrio é uma liderança em modo de sobrevivência, marcada por controle excessivo, menor escuta e reatividade disfarçada de estratégia, na qual o estado neural do líder se impõe ao conteúdo da mensagem.

Pressão é uma condição recorrente nos ambientes de liderança, mas o impacto que ela produz depende da capacidade de regulação emocional de quem lidera. Pesquisas em psicologia organizacional indicam que equipes conduzidas por líderes emocionalmente desregulados apresentam níveis mais baixos de segurança psicológica, fator diretamente associado a pior desempenho e menor inovação. O Google Project Aristotle, por exemplo, identificou a segurança psicológica como o principal elemento das equipes de alta performance. Nesses contextos, a confiança não nasce da força aparente, mas da estabilidade emocional percebida. O cérebro do time responde ao estado interno do líder, muito mais do que à sua intenção declarada ou ao conteúdo do discurso.

A liderança possível é sempre função da interação entre três sistemas cerebrais. O sistema límbico, onde residem medo, pertencimento e empatia. O córtex pré-frontal, responsável por visão estratégica, ética e tomada de decisão consciente. E o tronco cerebral, que define se o corpo está em segurança ou em alerta. Quando o líder não regula o próprio estado interno, a estratégia vira reação sofisticada, a empatia vira performance e a autoridade se transforma em tensão. Por isso, líderes tecnicamente brilhantes colapsam emocionalmente, enquanto outros, menos eloquentes, constroem culturas sólidas sustentadas por segurança e presença.

Há, no entanto, uma boa notícia, o cérebro é plástico. Neuroplasticidade não é discurso motivacional, mas fato biológico amplamente documentado pela ciência. Circuitos neurais se reorganizam a partir de práticas repetidas, novos estados emocionais recorrentes e maior consciência corporal. O líder que evolui não muda apenas comportamentos visíveis, mas altera o próprio ritmo interno, a relação com o silêncio, a capacidade de pausar entre estímulo e resposta e a tolerância à vulnerabilidade. No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja que líder eu quero ser, mas em que estado cerebral eu estou liderando todos os dias. Porque o cérebro que se cultiva é, ao mesmo tempo, o limite e a expansão da liderança que se entrega.

*Por Evandro Lopes, CEO da SLcomm, o primeiro e único ecossistema de Neurocomunicação do Brasil — onde marcas, eventos e estratégias nascem com base em neurociência, não em achismos. Com MBA em Marketing pela ESPM e Fundação Dom Cabral, especialização pela São Paulo Business School, pós-graduação em Neuromarketing pelo IBN Brasil.