Marc Benioff, o CEO da Salesforce. Foto: Divulgação.
Marc Benioff, o CEO da Salesforce, resolveu fazer piada sobre a possibilidade de seus próprios funcionários serem deportados dos Estados Unidos, durante um keynote da empresa que pegou bastante mal.
Durante sua apresentação em um evento interno em Las Vegas nesta semana, Benioff teria pedido que os funcionários estrangeiros presentes se levantassem, para então dizer que agentes da ICE estariam na sala.
O ICE, como se sabe, é a agência do governo americano encarregada de conduzir deportações de estrangeiros ilegais nos Estados Unidos, alvo de críticas pelo excesso de violência nas suas operações, entre outras coisas.
Segundo relatos de funcionários para sites de tecnologia, Benioff foi vaiado por parte dos presentes, o que é totalmente fora do comum para um evento corporativo, para dizer o mínimo.
O clima ficou ruim internamente. Rob Seaman, gerente geral do Slack, a rede de comunicação corporativa adquirida pela Salesforce por US$ 27,7 bilhões em 2020, disse em um email para funcionários que não podia “defender ou explicar” os comentários de Benioff, que seriam contra os seus “valores pessoais”.
O problema vai um pouco além de uma brincadeira de mau gosto com funcionários da própria empresa num evento fechado, como apontou em comentário no LinkedIn um profissional francês de destaque no ecossistema da Salesforce.
“O CEO de uma empresa pediu que funcionários cujo visto e status de residência estão vinculados ao emprego nessa empresa se identificassem e, depois, transformou o status imigratório deles na piada. No clima político atual, isso não é uma brincadeira. É uma ameaça dita em tom engraçado”, resumiu o post, no momento com quase 1 mil curtidas.
Até agora, a Salesforce não reagiu oficialmente à pressão por um pedido de desculpas.
No site interno da gigante de CRM, o keynote de Benioff foi editado para retirar os comentários do CEO da empresa, segundo relata o site Business Insider.
Os comentários de Benioff acontecem em meio a um realinhamento político do Vale do Silício, no qual os CEOs das grandes empresas, até pouco tempo atrás apoiadores dos democratas, têm se colocado do lado do presidente Donald Trump.
No outono passado, Benioff disse ao New York Times que “apoiava totalmente” o presidente e afirmou que Trump deveria enviar tropas da Guarda Nacional para São Francisco, antes de se desculpar e voltar atrás nessas declarações. A Salesforce é fornecedora de tecnologia do ICE, e tem buscado ampliar seus negócios com a agência.
Vale lembrar que a Salesforce costuma enfatizar na sua cultura interna o conceito de “Ohana”, uma palavra havaiana que significa “família”, visando transmitir a ideia de que funcionários, clientes, parceiros e comunidades fazem parte de um mesmo ecossistema conectado.
De certa forma, o conceito segue valendo: toda família que se preze tem um “tiozão do churrasco”, e, pelo que parece, na Salesforce ele é também o CEO.
